{"id":2473,"date":"2020-06-14T15:03:49","date_gmt":"2020-06-14T18:03:49","guid":{"rendered":"http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/?p=2473"},"modified":"2020-06-14T15:03:49","modified_gmt":"2020-06-14T18:03:49","slug":"joao-gilberto","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/joao-gilberto\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Gilberto"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Gilberto.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" class=\"aligncenter size-full wp-image-2474\" srcset=\"http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Gilberto.jpg 1024w, http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Gilberto-300x225.jpg 300w, http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Gilberto-768x576.jpg 768w, http:\/\/nossacasa.net\/nossosriachos\/agroecologia\/wp-content\/uploads\/sites\/9\/2020\/06\/Jo\u00e3o-Gilberto-400x300.jpg 400w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\nDurante 10 meses, o engenheiro florestal Jo\u00e3o Gilberto Peixoto Milanez, casado com Arimila, pai de Mariana Marayadu, Waid\u00ea e Jo\u00e3o Lucas, viveu uma experi\u00eancia diferente na vida. Ele, a esposa e a filha Mariana, de 1 ano e 8 meses na \u00e9poca, passaram uma temporada em aldeia ind\u00edgena no Xingu, desenvolvendo um trabalho de educa\u00e7\u00e3o junto aos ind\u00edgenas. Mas ao voltar para casa, em Sidrol\u00e2ndia, Jo\u00e3o trouxe na bagagem aprendizado e li\u00e7\u00e3o de vida sobre como realmente \u00e9 viver em comunidade.<\/p>\n<p>&#8220;Trabalho com sistema agroflorestal org\u00e2nico em Sidrol\u00e2ndia, fazendo entrega dos produtos em Campo Grande atrav\u00e9s da CSA (Comunidade que Sustenta a Agricultura). Dois anos antes de eu vir pra regi\u00e3o, morava em uma aldeia ind\u00edgena no Xingu com minha esposa e nossa filha Mariana Marayadu junto ao povo Yudj\u00e1, conhecidos tamb\u00e9m como Juruna.<\/p>\n<p>A amizade que desenvolvemos com os Yudj\u00e1 por meio de trabalhos volunt\u00e1rios nas aldeias atrav\u00e9s da Associa\u00e7\u00e3o Novo Encanto de Desenvolvimento Ecol\u00f3gico fez com que receb\u00eassemos um convite inesperado do nosso \u201cirm\u00e3o\u201d Y\u00e3karewa Juruna. Ele me ligou dizendo que precisavam de uma pessoa para assumir a coordena\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da escola da aldeia Aribaru e queria que f\u00f4ssemos n\u00f3s a desempenhar o trabalho, j\u00e1 que eles n\u00e3o conheciam algum branco que confiavam que conseguiria se adaptar \u00e0 vida na aldeia e realizar o trabalho.<\/p>\n<p>Pensamos, mas n\u00e3o hesitamos em aceitar o convite. Na \u00e9poca eu trabalhava com uma comunidade quilombola que me exigia atividades presenciais apenas uma semana por m\u00eas, logo daria para conciliar morar na aldeia com minhas atividades profissionais. Minha esposa \u00e9 bi\u00f3loga e trabalhou por alguns anos com a pedagogia Waldorf, estando bem capacitada para ocupar o cargo de coordenadora pedag\u00f3gica da escola. Pois bem, fomos sem sombra de d\u00favidas que seria uma viv\u00eancia inesquec\u00edvel e de grande crescimento pessoal, inclusive para nossa filha Mariana que tinha um ano e oito meses na \u00e9poca. <\/p>\n<p>L\u00e1 mor\u00e1vamos em uma oca de madeira coberta de palha de inaj\u00e1 e ch\u00e3o batido, dorm\u00edamos em redes, o banho e lavagem de roupas e lou\u00e7a faz\u00edamos no rio e a noite nos gui\u00e1vamos pela luz de lanternas e velas. T\u00ednhamos um pequeno fog\u00e3o comum que levamos para facilitar a prepara\u00e7\u00e3o de alimentos, mas de vez em quando us\u00e1vamos fogo de ch\u00e3o para cozinhar. Todos os meses, quando \u00edamos para a cidade, faz\u00edamos compras para complementar nossa alimenta\u00e7\u00e3o al\u00e9m do que havia na aldeia.<\/p>\n<p>A base da alimenta\u00e7\u00e3o deles \u00e9 peixe e farinha e em alguns momentos produtos da ro\u00e7a como banana, melancia e milho e frutos da floresta como ing\u00e1, jatob\u00e1 e pequi.<\/p>\n<p>Minha esposa desempenhava o trabalho de coordenadora pedag\u00f3gica na escola junto aos professores ind\u00edgenas e tamb\u00e9m fazia um trabalho com as mulheres, exercendo sua ocupa\u00e7\u00e3o de doula. Eu acompanhava as atividades desempenhadas pelo Y\u00e3karewa e sua fam\u00edlia, indo pescar e ca\u00e7ar, trabalhar na ro\u00e7a, construindo casa, buscando materiais para confec\u00e7\u00e3o de artesanatos e arco e flecha al\u00e9m de outras coisas.<\/p>\n<p>Meu objetivo era o de me conectar ao povo Yudj\u00e1 e vivenciar sua cultura, pois eu sabia que tinha muito mais para aprender do que ensinar. Eles s\u00e3o um povo pac\u00edfico e transmitem isso. \u00c9 como se l\u00e1 o tempo passasse diferente, pois n\u00e3o sent\u00edamos a press\u00e3o da rotina como acontece na sociedade dos n\u00e3o \u00edndios. <\/p>\n<p>Um dia uma expedi\u00e7\u00e3o de sa\u00fade chegou \u00e0 aldeia e no momento de voltar eles estavam conversando que precisavam sair cedo para chegar a tempo na cidade para trabalhar, pois o dia seguinte seria segunda feira, foi quando ouvi um Yudj\u00e1 dizer: \u201cSegunda-feira \u00e9 coisa de branco capitalista\u201d. Rimos e eu como estava morando l\u00e1 pude entender com mais profundidade o que aquilo significava.<\/p>\n<p>Eles s\u00e3o um povo trabalhador, mas n\u00e3o sentem a necessidade de acumula\u00e7\u00e3o. Trabalham quando \u00e9 preciso. Se tem fome \u00e9 preciso colher algo da ro\u00e7a, pescar ou ca\u00e7ar. Se \u00e9 o momento de construir uma nova casa ent\u00e3o m\u00e3os \u00e0 obra, independente se \u00e9 segunda ou sete de setembro. Bem como se \u00e9 dia de celebrar, isso pode ser feito em uma ter\u00e7a-feira sem problema algum, pois s\u00e3o conectados \u00e0 natureza e muito espiritualizados seguindo os sonhos e atendendo aos chamados para celebrar a vida e tamb\u00e9m se recolher no momento oportuno.<\/p>\n<p>Outro dia eu estava caminhando pelo p\u00e1tio da aldeia e a Mariana estava por perto. De repente come\u00e7ou a ventar, o tempo come\u00e7ou a fechar e foi escurecendo o que pra mim significava apenas que vinha chuva. Ent\u00e3o o Payaw\u00e1 me alertou e disse: \u201cLeve a Mariana para dentro de casa, essa nuvem est\u00e1 trazendo not\u00edcia ruim e \u00e9 para crian\u00e7a. Eu a peguei e fomos para nossa oca. A chuva n\u00e3o veio, o tempo fechado se abriu e continuamos as atividades normais. No dia seguinte soubemos que uma crian\u00e7a da aldeia foi diagnosticada com tuberculose.<\/p>\n<p>Ainda bem que chegavam mais sinais de alegria para o povo do que sinais ruins. \u201cT\u00e1 ouvindo esse passarinho cantar?\u201d, Y\u00e3karewa certa vez me perguntou. Eu respondi afirmativamente e ele continuou: \u201cQuando ele canta desse jeito \u00e9 not\u00edcia boa que est\u00e1 trazendo\u201d. Demorou um pouco, mas a confirma\u00e7\u00e3o chegou com a not\u00edcia de que est\u00e1vamos esperando mais um filho, nosso querido Waid\u00ea, concebido e gerado l\u00e1 na aldeia. Ele nasceu na nossa oca em um parto super humanizado recebendo boas energias de toda a comunidade. <\/p>\n<p>L\u00e1 pudemos sentir o que \u00e9 viver em comunidade. Eles cuidavam da gente como membros da fam\u00edlia. Um dia fui pescar com Payaw\u00e1 e n\u00e3o peguei nada, enquanto ele pescou dois tucunar\u00e9s, um grande e um m\u00e9dio. Ele \u00e9 pai de oito filhos e na minha oca \u00e9ramos apenas tr\u00eas moradores. Eis que ele me diz: \u201cJ\u00e1 que voc\u00ea n\u00e3o pegou peixe, leva esse pra sua casa\u201d, me oferecendo o maior deles. Deu um n\u00f3 na garganta, ele tendo que alimentar um time de futsal e me oferecendo o melhor que tinha. Obviamente n\u00e3o aceitei, mas recebi uma grande li\u00e7\u00e3o aquele dia. Isso era comum, nos oferecerem o seu melhor. E o melhor nos deram: sua aten\u00e7\u00e3o para nos ensinar sua cultura, paci\u00eancia, alegria e a viver o momento.<\/p>\n<p>Uma vez fui com eles at\u00e9 a cidade e na volta est\u00e1vamos esperando na beira do rio at\u00e9 que viessem nos buscar de barco para subirmos para a aldeia. Ent\u00e3o avistamos dois barcos descendo paralelamente. Em certo momento um deles virou logo atr\u00e1s do outro passando por aquela onda formada pela h\u00e9lice do motor e assim que passou, o motor dele, que n\u00e3o estava muito bem fixado ao barco, soltou e afundou no rio Xingu em um lugar fundo sem chances de conseguir recuperar. Um motor de barco n\u00e3o \u00e9 uma coisa barata, muito mais para eles que tem (os que tem) uma renda baix\u00edssima. Eu fiquei muito preocupado com aquilo e quando olhei para os \u00edndios que estavam comigo eles estavam rindo. Demorei pra entender. O Akan at\u00e9 soltou uma piadinha: \u201cVai ter que colocar gasolina no anzol pra ver se fisga o motor\u201d. Os outros riram mais ainda. At\u00e9 que eu entendi. Se tivesse algo para fazer, eles fariam para resgatar o motor. Como n\u00e3o tinham, o melhor a fazer era rir da situa\u00e7\u00e3o pois era uma m\u00e1quina e n\u00e3o uma pessoa. Embora tivessem trabalhado para conseguir comprar, sofrer n\u00e3o levaria a lugar algum. Quando chegamos \u00e0 aldeia, rebocados pelo outro barco, j\u00e1 foram contando da novidade causando mais gargalhadas nos outros moradores da comunidade.<\/p>\n<p>L\u00e1 constru\u00edmos um viveiro, implantamos uma agrofloresta, constru\u00edmos sanit\u00e1rios secos entre outras coisinhas para minimamente agradecermos por nos tratarem como membros da fam\u00edlia, pois foi assim que sentimos. Esse sentimento carregamos at\u00e9 hoje com saudade no peito dos bons momentos vividos juntos.<\/p>\n<p>Moramos l\u00e1 por 10 meses em um per\u00edodo de troca de experi\u00eancias onde aprendi muito. Uma das coisas que pude notar acompanhando-os em suas atividades di\u00e1rias, e posso afirmar, \u00e9 que os Yudj\u00e1 s\u00e3o um povo sustent\u00e1vel\u201d. <\/p>\n<p><strong>Fonte<\/strong>: <em>CAMPO GRANDE NEWS<\/em>\n<\/div>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Durante 10 meses, o engenheiro florestal Jo\u00e3o Gilberto Peixoto Milanez, casado com Arimila, pai de Mariana Marayadu, Waid\u00ea e Jo\u00e3o Lucas, viveu uma experi\u00eancia diferente na vida. 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