Angústia Quarta (Nicolás Guillén)
Espanha – 1937
Tradução de Thiago de Mello
Federico
Bato na porta de um romance.
– Federico não anda por aqui?
Um papagaio me responde:
– Saiu.
Bato a uma porta de cristal.
– Federico não anda por aqui?
Aparece uma mão que mostra:
– Está no rio.
Bato na porta de um cigano.
– Federico não anda por aqui?
Ninguém responde, ninguém fala…
– Federico! Federico!
A casa escura, vazia;
Negro musgo nas paredes;
Boca de poço sem roda,
Jardim de lagartos verdes.
Sobre a terra revolvida
caracóis que se remexem,
e o rubro vento de julho
se balança entre ruínas.
Federico!
Onde é que o cigano morre?
Onde os seus olhos se esfriam?
Onde estará, que não vem!
(Uma canção)
“Saiu no domingo, à noite,
saiu no domingo, não volta.
Levava na mão um lírio,
levava nos olhos febre;
o lírio se tornou sangue,
o sangue se tornou morte.”
(Momento em Garcia Lorca)
Sonhava Federico em nardo e cera,
azeitona e cravo e lua fria.
Federico, Granada e Primavera.
Em sua afiada solidão dormia,
ao pé de seus ambíguos limoeiros,
deitado musical perto da via.
Tão alta a noite, ardente de luzeiros,
arrastava sua cauda transparente
por todos os caminhos carreteiros.
Federico!, gritaram de repente,
e com as mãos imóveis, amarradas,
ciganos que passavam lentamente.
Que voz a dessas veias dessangradas!
Que ardor o de seus corpos malferidos!
Que suaves as pisadas, as pisadas!
Iam verdes, recém-anoitecidos;
pelo duro caminho invertebrado
caminhavam descalços os sentidos.
Alçou-se Federico, em luz banhado.
Federico, Granada e Primavera.
E com lua, e cravo, nardo e cera,
seguiu-os pelo monte perfumado.