A terra que nos alimenta

Coluna da Luisa
Luisa é uma das criadoras do Coletivo Córrego da Tiririca. Ela nos brinda com suas considerações sobre diversos aspectos ligados direta ou indiretamente com nosso projeto.



Com o fim da pandemia, o percentual de pessoas que não tem acesso ao alimento tende a se ampliar.

Ao longo da era do desenvolvimentismo imposta nos anos 1940 do Século XX as pressões por ocupação do território no campo levaram a desestruturação da agricultura familiar, violentas lutas por terra e envenenamento por agrotóxicos.
Estamos agora no século XXI, mas todo o avanço tecnológico do século passado não foi capaz de acabar com a fome no planeta. Os direitos básicos das populações não foram contemplados, e nos grandes centros ocorreu uma perda acelerada das riquezas culturais e naturais que se formaram através dos tempos.
Uma moradora da região metropolitana de Petrolina, em Pernambuco, deixou um depoimento preocupante: Se o mercado ficou mais caro, o jeito é comer menos.

Todos nós temos o direito a alimentos frescos, nutritivos e adequados a nossa cultura. Alimentos produzidos de forma saudável, livre de veneno e fruto do trabalho digno do homem no campo.

Como solucionar os problemas ligados a segurança alimentar? Quais as soluções possíveis?

Fugindo das soluções assistencialistas, o fortalecimento da agricultura agroecológica com a produção de alimentos mais saudáveis, pode garantir a segurança alimentar e a saúde das populações humanas.

A terra possui valor social, constrói a essência do homem no trato com a natureza, para produzir alimentos e o bem viver. A sabedoria popular no campo é passada de geração para geração. É a macela do campo que embeleza com suas flores perenes. A arnica que cura o machucado. O genipapo que tinge.

O homem do campo tem o direito de escolher o que quer produzir, bem como gerir seu próprio sistema alimentar. Como princípios da produção alimentar estão o direito à preservação dos recursos naturais, produção de comida saudável, uso de técnicas e tecnologias da cultura camponesa, sistemas locais de produção.
Isso não significa um retorno ao passado, mas sim uma produção harmônica num campo mais sustentável. O desafio principal é estabelecer novas formas de produção que beneficiem a natureza (considerando pessoas e ambiente como natureza).

Dentro do que conhecemos como agroecologia, um sistema de plantio que restitui as pessoas que vivem do campo o valor de uso e a função social da terra é a Agricultura Sintrópica. Esse sistema de plantio mostra grande potencial para recuperação florestal, juntamente com o restabelecimento da fauna pela constante incorporação de matéria verde ao solo. Num sistema agroecológico a revitalização dos recursos hídricos acontece naturalmente, e nascentes secas voltam a jorrar água. A produção de alimentos vem em quantidade e qualidade.

O modelo de agricultura sintrópica é capaz de dignificar a vida do trabalhador, que passa a habitar um campo mais sustentável, livre de veneno. Recupera a íntima relação ser humano e mundo natural, respeitando os limites dos ecossistemas naturais e dos sistemas de plantio.

Por diversas razões a agricultura convencional tem conduzido a um ambiente inóspito e degradado. Mas a agricultura sintrópica vem como uma redenção. Uma metodologia capaz de restaurar os ambientes naturais, respeitando os ciclos da terra, simplesmente plantando alimento junto com a floresta.
E quem disse que a agricultura precisa ser grande? A agricultura familiar, do pequeno e médio agricultor, é a principal fonte do alimento que chega a mesa do brasileiro.

E na cidade?
Nas cidades as pessoas tem todos os produtos à mão e simplesmente vão a um mercado para comprar tudo o que necessitam. Um legado deixado pela comodidade foi deixarmos de usar os produtos que nossos avós usavam e adotarmos apenas aquilo que o Mercado nos oferece. Aprender como os nossos ancestrais se alimentavam pode nos ajudar a entender melhor o grave estado nutricional no qual se encontra a nossa sociedade atual.
Mas se nem é possível escolher, pois falta o recurso para prover, será que comer menos resolve? Não vai precisar. Mudar a vida é possível mesmo numa área urbana. Fazer o cultivo de alimentos como hortaliças, frutas e legumes é bem simples e acompanhar todo o seu processo de crescimento pode ser gratificante. Assim, hortas comunitárias podem minorar o problema da segurança alimentar na periferia das grandes cidades, promovendo a colaboração e fortalecendo as relações interpessoais. É o quintal de todos!
No momento atual nossa maior inovação é resolver problemas populacionais, cuidar uns dos outros, e as pessoas agirem de forma cooperativa.

Se a pandemia nos resgatou o sentido de solidariedade e de pertencimento comunitário, está na hora de sermos a mudança. A questão alimentar é uma questão que impacta não só o ambiente, mas todo o tecido social. A justiça social só será alcançada quando o equilíbrio ambiental acontecer. Da mesma forma, o equíbrio ambiental só virá com a justiça social. Pois quando se tem fome, como pensar no resto?

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