Goiabeira Albina

Textos da Bebel
Bebel enviou um texto sensível que relata uma relação afetiva entre uma menina e uma goiabeira. Escrito por uma aluna adulta da Oficina de Textos.

Goiabeira Albina

Era um sítio verde e amplo que modestamente não se mensurava em hectares. A casa amarela era abrigo noturno e para os dias de chuva. A felicidade se gestava no quintal. Tudo que se encaixava nos cento e oitenta e quatro passos meticulosamente contabilizados deste terreno era solo fértil para a imaginação.

Logo na entrada, duas mangueiras exuberantes faziam a recepção nos longos dias cor-de-rosa. Caules largos e galhos fortes atestavam a segurança antiquedas. Aos sentidos, mostravam-se folhosas e verdejantes. Tinham as folhas compridas como dedos de pianista. Eram maestrinas das tempestades sinfônicas. Sentia-me constantemente ameaçada, sendo minúscula a humanidade diante daquela força da natureza.

No quesito árvores, arbustos, plantas e flores, eu só tinha olhos para a goiabeira albina – minha árvore. Um lindo nome de uma classificação botânica que eu mesma inventei.

Sua estatura mediana não suscitava imponência. O seu tronco liso e reluzente provocava a fixa ideia de que se tratava de um pau-de-sebo disfarçado. A copa era rala de folhas. Parecia mais uma goiabeira comum.

Mas, encantava-me a raridade de seus frutos de poupa branca e sem gosto. Era dotada de muita personalidade e ousadia. Uma árvore cujos frutos não são suculentos só podia se prestar ao companheirismo infanto-juvenil.

Fixava-se no exato extremo diagonal do terreno, sem qualquer outra planta ao redor, seu toque final de excentricidade. Era ali no médio paraíso do distanciamento social que ela me ninava com seus braços tortos e retorcidos. Eu me fazia em seu colo para todo tipo de florescer.

Ela exalava o aconchego natural das matriarcas. Não respondia às minhas inquietações. Às vezes, depois de muitas súplicas, se rendia ao balançar dos ventos ou lançava uma folha seca como que se mandasse um sinal. Passei a fazer fotossíntese observando ela recitar poesias. Ela me abraçava e eu plantava sementes nessa inusitada amizade.

Fez-se silenciosa confidente nas minhas memórias. Houve um dia em que se partiu ao meio atingida por um raio. Foi o que me contaram, com um corte brutal se rompeu em duas metades quase na mesma época em que eu deixei de ser criança. Tenho em mim, o retrato dela. Eu jamais me despedi.

Luiza Fablicio Viana Araujo

Um Pé de Milho

Rubem Braga

Os americanos, através do radar, entraram em contato com a Lua, o que não deixa de ser emocionante. Mas o fato mais importante da semana aconteceu com o meu pé de milho.

Aconteceu que, no meu quintal, em um monte de terra trazida pelo jardineiro, nasceu alguma coisa que podia ser um pé de capim — mas descobri que era um pé de milho. Transplantei-o para o exíguo canteiro da casa. Secaram as pequenas folhas; pensei que fosse morrer. Mas ele reagiu. Quando estava do tamanho de um palmo, veio um amigo e declarou desdenhosamente que aquilo era capim. Quando estava com dois palmos, veio um outro amigo e afirmou que era cana.

Sou um ignorante, um pobre homem da cidade. Mas eu tinha razão. Ele cresceu, está com dois metros, lança suas folhas além do muro — e é um esplêndido pé de milho. Já viu o leitor um pé de milho? Eu nunca tinha visto. Tinha visto centenas de milharais — mas é diferente. Um pé de milho sozinho, em um canteiro espremido, junto do portão, numa esquina de rua — não é um número numa lavoura, é um ser vivo e independente. Suas raízes roxas se agarram no chão e suas folhas longas e verdes nunca estão imóveis. Detesto comparações surrealistas — mas na glória de seu crescimento, tal como o vi numa noite de luar, o pé de milho parecia um cavalo empinado, de crinas ao vento — e em outra madrugada, parecia um galo cantando.

Anteontem aconteceu o que era inevitável, mas que nos encantou como se fosse inesperado: meu pé de milho pendoou. Há muitas flores lindas no mundo, e a flor de milho não será a mais linda. Mas aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que me fazem bem. É alguma coisa que se afirma com ímpeto e certeza. Meu pé de milho é um belo gesto da terra.

Eu não sou mais um medíocre homem que vive atrás de uma chata máquina de escrever: sou um rico lavrador da rua Júlio de Castilhos.