
Luisa é uma das criadoras do Coletivo Córrego da Tiririca. Ela nos brinda com suas considerações sobre diversos aspectos ligados direta ou indiretamente com nosso projeto.

Sob a sombra do passado
É verão. O assustador ruído de motosserras em ação preocupa os moradores no bairro do Flamengo, zona sul do Rio de Janeiro. O som só interrompido após a execução de setenta e uma sentenças de morte. Em nome de uma expansão urbana, que se mede em novas áreas utilitárias de enormes construções de concreto. De um dia a outro o verde do outrora Colégio Bennett se tornou um vazio de vida. Foi um silêncio sentido na pele, no sopro quente do vento. Na quietude pesada de onde antes havia o murmurar das folhas e o gargalhar dos pássaros.
A sombra da árvore nos convida a estar simplesmente ali. Um lugar onde a cidade, para suas intricadas engrenagens, para fazer uma pausa. Paralisa o tórrido sol que espanca no verão. Mas como podemos render a elas o merecido protagonismo?
As árvores, todas elas, tem seu nome. São amendoeiras, jaqueiras, ipês, pau-ferro, paineiras, palmeiras e tantas outras. Não estão isoladas – formam corredores de vida. Uma pitangueira, juntamente com a goiabeira e mais a aroeira da calçada, pode alimentar sabiás, sanhaços e gambás. Esses animais, por sua vez, dispersam sementes, polinizam flores e mantêm uma intrincada teia viva funcionando em meio a cidade. Quando um conjunto de árvores adultas vai ao chão, não é só a vegetação que é suprimida. Se destroem ninhos, ambientes, uma verdadeira “praça de alimentação”, rompendo a rede. E nós também precisamos delas. Sejam elas nativas ou exóticas, isso não importa. Nós cidadãos do mundo também o somos. Elas são a terapia gratuita que acalma, o ar-condicionado que não pesa na conta de luz. Se não for para manter a sanidade mental de quem vagueia por caminhos arborizados, que seja para minorar os efeitos do planeta que esquenta.
E a história se repete. Do outro lado da baía de Guanabara também o arborizado terreno do colégio Miraflores no bairro de Icaraí, na vizinha Niterói também foi condenado a virar um edifício alto. Nasci no Rio, na Tijuca, e vi tudo isso acontecer. Mas não vou me calar.
Porque o destino das cidades está no cinza do concreto? Será que os arquitetos do século XXI não podem mesclar estruturas utilitárias e ao mesmo tempo verdes? Jardins de chuva? Parques lineares as margens dos córregos? Tipo, cidades esponja, que tal?
A dor da perda das árvores no Flamengo é real e necessária. Dói muito. Mas não será em vão. Novas políticas públicas alusivas aos direitos da natureza estão por vir. Que a lembrança desse conjunto de árvores nos faça olhar com renovada gratidão e vigilância para as oportunidades no próprio bairro. E, sobretudo, que nos mantenha atentos para exigir e construir novos espaços verdes. Porque a verdadeira crônica da cidade se escreve nas raízes que firmam o chão, nos galhos que quebram o vento, nos nossos passos sobre o solo de folhas e flores e sobretudo nas sombras, sempre generosas, que nos convidam a parar, respirar e seguir adiante.

