A Mata Atlântica de tabuleiro

Limites. A Mata Atlântica Nordeste é constituída pelas bacias hidrográficas de rios que deságuam no Atlântico entre o rio Itabapoana (RJ/ ES) e o rio Japaratuba (SE) (sensu Abell et al., 2008). A ampla rede hidrográfica que entrecorta o nordeste do Brasil é marcadamente variada quando comparada a outras regiões brasileiras, com grandes rios margeados por florestas até riachos temporários do semiárido. A ecorregião Mata Atlântica Nordeste tem feições muito particulares, e uma delas é a Mata Atlântica de tabuleiro. Compreendem as bacias fluviais entre o norte do Rio Doce, sub-bacia do Rio São José, rio Barra Seca, São Mateus, Itaúnas, microbacias de riacho Doce, Mucuri, Peruípe, Itanhém, Jucuruçu, microbacias de Cumuruxatiba, rio Cahy, Caraíva, Corumbau, Rio dos Frades, microbacias de Trancoso, rio Buranhém, João de Tiba, Santo Antônio. (Fig. 1)

Figura 1- Área de estudo e investigação do presente guia. Sistemas hídricos entre o norte do Espírito Santo e extremo sul da Bahia, do norte do rio Doce ao sul do rio Jequitinhonha.

Porque tabuleiro? Regiões de relevo suave ou plano, denominadas de tabuleiros costeiros (uma variação da floresta ombrófila densa), ocorrem ao norte do Espírito Santo e sul da Bahia. Ali as bacias fluviais entrecortam uma vasta área de relevo plano a suave ondulado, sem escarpas íngremes. As altitudes médias variam entre 110 a 640 metros nas áreas montanhosas. Basta dizer que a célebre frase “terra a vista” correspondeu a visualização do Monte Pascoal, com apenas 536 metros de altitude e que pode ser visto do mar a cerca de pouco mais de uma hora de navegação da costa. (Fig. 2).

Figura 2- Monte Pascoal. Altitude 536 metros, nas proximidades da vila de Palmares, Prado- BA.

Paisagens. A floresta Atlântica que conta com menos de 5% da sua área original inalterada (Menezes, 2007) atravessam acelerado processo de fragmentação e destruição. Em se tratando dos ambientes de água doce a perda dos ambientes naturais tem sido mais rápida do que a exploração e conhecimento da fauna associada de peixes. Nas últimas décadas, as iniciativas conduzidas para um melhor conhecimento dos peixes de riacho têm revelado a existência de uma rica e diversificada fauna, associada, de forma íntima, à floresta que lhe proporciona proteção e alimento (Cetra et al., 2010; Sarmento-Soares & Martins-Pinheiro, 2013).
As nascentes.
Os alagados e brejos.
Os riachos.
Os rios.
Os estuários.
Os manguezais.

Figura 3- A- Nascente do rio Itanhém- Medeiros Neto- BA; B- Brejo no Córrego Taquaruçu entre Costa Dourada e Pedro Canário- ES; C- Lavadeira no córregp São Pedro, vila de Pau d ‘alho- Itamaraju- BA; D- Pescadores no rio Jucuruçu- Jucuruçu- BA; E- Córrego Palmares- Prado- BA; F- Nascente do Córrego Taquaruçu, Conceição da Barra- ES; G- Rio Itaúnas, Conceição da Barra- ES; H- Córrego Buri- Cumuruxatiba- Prado- BA; I- crianças brincando no rio Dois de Abril- Palmópolis- MG; J- várzea do rio Japara na maré cheia- Cumuruxatiba- Prado- BA.

Águas. As comunidades de peixes de água doce na Mata Atlântica de tabuleiro são bastante diversificadas, com grande riqueza de ambientes. Riachos com forte correnteza, grande declividade e fundo pedregoso, são freqüentes no norte do rio Doce, nos altos vales dos rios Mutum e São José. Mais para a costa os Lagos do rio Doce formam significativa paisagem lacustre, em uma área de planície isolada durante o período Quaternário (Menezes, 1988). A ictiofauna lacustre abriga espécies em grau de ameaça de extinção e esses ambientes lênticos vêm sofrendo um outro tipo de ameaça: a introdução de espécies alóctones, ou seja, que vem de outros biomas do país ou mesmo de outros continentes. Ambientes temporários, comuns em tabuleiros, são habitados por peixes popularmente conhecidos como “peixes anuais”, que possuem um ciclo de vida muito diferenciado do restante da ictiofauna, e estão muito associados a este tipo de ambiente. Em virtude das particularidades de seu ciclo sazonal de vida, tais espécies sofrem ameaça de extinção pela perda de habitat (Vieira, Gasparini, 2007). A ictiofauna de grandes rios tem características próprias. Ali habitam espécies de grande porte, em sua maioria importante para a pesca artesanal.

Áreas naturais protegidas. Dentre as áreas naturais podemos destacar no extremo sul da Bahia os Parques Nacionais – PARNA do Descobrimento, drenada pelas microbacias de Cumuruxatiba e rio Cahy, PARNA Monte Pascoal, banhada pelo rio Corumbau, e PARNA Pau Brasil, que abriga as nascentes das microbacias de Trancoso. No norte do Espírito Santo a maior área protegida na floresta de tabuleiro é a Reserva Biológica de Sooretama, na bacia do rio Barra Seca, e ainda as Reservas Biológicas de Córrego do Veado, Córrego Grande, a Floresta Nacional do Rio Preto, e ainda o Parque Estadual de Itaúnas, na Bacia do rio Itaúnas. Juntas, estas áreas protegidas abrigam as maiores matas preservadas, com grande diversidade de espécies, muitas delas ameaçadas.
Podemos refletir. A pergunta que fica é se esses oásis naturais bastam por si só.

Figura 4- Rio Santo Antônio na APA Santo Antônio, Guaiú- Porto Seguro- BA.

Figura 5- Rio Inbaçuaba, cujas nascentes se encontram no Parque Nacional do Descobrimento- Prado- BA.

Figura 6- Córrego Grande, no interior da Reserva Biológica de Córrego Grande- Conceição da Barra- ES.

Guildas funcionais. Seguindo metodologia de Elliot et al. (2007), para cada espécie de água salgada foi atribuída uma categoria de guilda relacionada ao uso do ambiente estuarino refletindo a natureza fisiológica das águas de transição. As espécies foram classificadas em: Migrantes Marinhos (MM)- Espécies que se reproduzem no mar e entram nos estuários em grande número, particularmente como juvenis. Espécies estuarinas (ES)- Capazes de completar todo o seu ciclo de vida dentro dos estuários, ou que possuem estágios larvais que podem se completados fora deste. Visitantes de água doce (FS)- Espécies de água doce que ocasionalmente entram nos estuários em um número baixo, com distribuição geralmente limitada a baixas salinidades.
As espécies Visitantes marinhos (MS)- espécies marinhas que ocasionalmente entram nos estuários- não foram avaliadas neste estudo, pois apesar de aparecerem em águas estuarinas não adentram pequenos corpos hídricos, objeto do presente estudo. São elas: o Gobiidae Gobionellus oceanicus, o Paralychthyidae Etropus crossotus, e os peixes das famílias Carangidae, Clupeidae, Engraulidae, Gerreidae, Haemulidae, Hemirhamphidae, Lutjanidae, Mugilidae e Sciaenidae.

Amostragem. A curiosidade quanto a diversidade de peixes em um corpo hídrico, pode ser sanada pela observação direta do comportamento dos peixes através de mergulho livre e documentação fotográfica subaquática, possibilitando uma abordagem naturalística (Sabino, 1999). Para estudos taxonômicos, mas também investigações sobre a biologia e ecologia de peixes há necessidade de captura de exemplares (Uieda & Castro, 1999). Para investigações acerca da ictiofauna precisamos organizar um projeto de pesquisa, começando pelo mapeamento da área a ser investigada e escopo do trabalho a ser feito. Planejar e solicitar as autorizações para pesquisa científica junto a reserva particular ou órgão ambiental, a exemplo da licença de coleta pelo SISBIO, e sobretudo ser responsável pelas atividades desenvolvidas no tempo de duração da pesquisa. Técnicas de amostragem, petrechos de pesca, métodos de anestesia e fixação podem ser encontrados em Malabarba & Reis, 1987; Uieda & Castro, 1999; Souza et al. 2012. A anotação sobre amostragem em um trabalho de campo precisa constar de uma Ficha de Campo (Anexo 1). As amostras precisam ser cuidadosamente manuseadas e devidamente acondicionadas. Em laboratório, o material colecionado precisa ser triado e identificado, com anotação das respectivas amostras em uma Planilha de triagem (Anexo 2). O destino final das amostras avaliadas são as coleções científicas.

Após dez anos investigando a região, foram feitas amostragens direcionadas as diversas bacias fluviais que entrecortam a floresta de tabuleiro bem como realizadas visitas a diversas coleções ictiológicas.

Esperamos através desta contribuição poder contribuir e ajudar no reconhecimento e na conservação dos singulares peixinhos que habitam os rios na floresta de tabuleiro.


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