Escravos da luz sem misericórdia

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Escravos da luz sem misericórdia

(Robert Kurz)


Publicado em 12/01/97 no caderno Mais! da Folha de São Paulo.


Inspiração iluminista do capitalismo tira do homem o direito de fugir para as trevas É a luz da razão iluminista que nos dias de hoje clareia os turnos da noite.




Ainda hoje, após mais de 200 anos, continuamos ofuscados pelo belo clarão do iluminismo burguês. A história da modernização compraz-se em metáforas da luz. O sol radiante da razão há de penetrar as trevas da superstição e fazer ver a desordem do mundo, para que enfim a sociedade seja configurada segundo critérios racionais. A escuridão não se manifesta como a outra faceta da verdade, mas como o reino negativo do demônio. Já no Renascimento, os humanistas polemizavam contra seus opositores tachando-os de ”obscurantistas”. ”Mais luz!”, terá clamado Goethe em 1832, prostrado em seu leito de morte. Como clássico, cumpria-lhe uma saída em grande estilo.


Os românticos bateram-se contra esta luz fria da razão e votaram-se novamente à religião, de modo sintético. Em vez da racionalidade abstrata, eles propalaram um irracionalismo não menos abstrato. Assim, em lugar de metáforas da luz, eles se deliciaram em metáforas das trevas. Novalis escreveu um ”Hino à Noite”. Ora, esta mera inversão do simbolismo iluminista na verdade passava ao largo do problema. Inaptos a superar a duvidosa unilateralidade dos iluministas, os românticos só fizeram por ocupar o pólo contrário da modernização e tornaram-se de fato ”obscurantistas” de uma forma de pensar reacionária e clerical.


Porém o simbolismo da modernidade também pode ser criticado por razões diametralmente inversas: como paradoxal desrazão da própria razão capitalista. Pois é sem dúvida curioso como as metáforas iluministas da luz cheiram, por assim dizer, a misticismo chamuscado.


A noção de uma fonte luminosa de brilho sobrenatural, como sugere a idéia da razão moderna, relembra a descrição do reino dos céus transfundido pela flama divina, e dos sistemas religiosos do Extremo Oriente já se conhece o conceito de ”iluminação”. Embora a luz da razão iluminista seja terrena, ela assumiu um caráter estranhamente transcendental. O lampejo celeste de um Deus perfeitamente indevassável foi apenas secularizado na banalidade monstruosa do fim em si mesmo que é o capitalismo, cujo trato cabalístico com a matéria terrena consiste na acumulação absurda do valor econômico. Isto não é razão, mas supremo desvario; e o que aí rebrilha é o fulgor do absurdo, que aflige e ofusca a vista.


A razão irracional do Iluminismo quer totalizar a luz. Essa luz, entretanto, não é um mero símbolo no reino do pensamento, mas possui antes um forte significado socioeconômico. Era fatal, neste aspecto, que o marxismo e o movimento histórico dos trabalhadores compreendessem a si mesmos como os legítimos herdeiros do Iluminismo e de suas metáforas da luz. Na ”Internacional”, o hino do marxismo, fala-se do maravilhoso futuro socialista: ”Então brilha o sol sem cessar”. Um caricaturista alemão tomou essa frase ao pé da letra e mostra, no ”reino da liberdade”, uns homens suarentos que erguem a vista ao sol escaldante e suspiram: ”Já faz três anos que ele brilha e deixou de se pôr”.


Isso não é apenas uma piada. De certa forma, a modernização efetivamente ”transformou a noite em dia”. Na Inglaterra, que como se sabe foi a precursora da industrialização, a iluminação a gás foi introduzida já em inícios do século 19 e logo expandiu-se por toda a Europa. Ao término do mesmo século, as lâmpadas a gás cederam lugar à luz elétrica. Há muito se provou medicinalmente que a quebra da distinção entre dia e noite, sob a luz fria dos sóis artificiais, afeta o ritmo biológico do homem e causa danos psíquicos e corporais. Por que então a forçosa iluminação planetária, que hoje alcança o mais afastado rincão da Terra?


Karl Marx, ele próprio um herdeiro do Iluminismo, declarara com acerto que o infatigável ativismo da produção capitalista é ”desmedido”. Contudo esta falta de medida não pode tolerar em princípio nenhum tempo que permaneça ”escuro”. Pois o tempo da escuridão é também o tempo do descanso, da passividade, da contemplação. O capitalismo requer, ao contrário, a ampliação de sua atividade às raias do esforço físico e biológico. Esses limites são temporalmente determinados pela rotação da Terra sob seu eixo, ou seja, as 24 horas completas do dia astronômico, que têm um lado claro (voltado para o sol) e outro escuro (de costas para o sol). O pendor do capitalismo é totalizar o lado ensolarado e tomar posse do dia astronômico como um todo. O lado anoitecido perturba este impulso. A produção, circulação e distribuição das mercadorias há de ”varar a noite”, pois ”tempo é dinheiro”. Ao conceito de ”trabalho abstrato” na moderna produção de mercadorias corresponde não apenas seu prolongamento absoluto, mas também sua abstração astronômica.


Tal processo é análogo à alteração da medida de espaço. O sistema métrico foi introduzido em 1795 pelo regime da Revolução Francesa e difundiu-se com tanta rapidez como a iluminação a gás. Na Alemanha, a transição para esse sistema deu-se em 1872. As medidas de espaço baseadas no corpo humano (pé, cúbito etc.), que eram tão diferenciadas quanto as culturas humanas, foram substituídas pelo metro astronômico abstrato, correspondente à quadragésima milionésima parte do perímetro da Terra. Essa unificação abstrata das medidas de espaço espelhava a imagem mecânica do mundo da física newtoniana, que por sua vez serviu de exemplo à economia mecânica da ciência de mercado moderna, do modo como a analisara e propalara Adam Smith (1732-1790), o fundador da economia.


A imagem do universo e da natureza como uma grande máquina compacta coincidia com a maquinaria econômica do capital, e as medidas astronômicas tornaram-se uma forma básica para a engenharia física e econômica. Isso não se aplica apenas ao espaço, mas também ao tempo. Ao metro astronômico, a medida do espaço abstrato, corresponde a hora astronômica, a medida do tempo abstrato; e estas são também as medidas da produção capitalista de mercadorias.


Só com o tempo abstrato foi possível ao dia do ”trabalho abstrato” avançar sobre a noite e abocanhar o tempo de descanso. O tempo abstrato pôde desligar-se de relações e objetos concretos. A maioria dos relógios antigos, como a ampulheta e a clepsidra, não apontavam ”que horas eram”; antes, eles eram aferidos segundo processos concretos, a fim de designarem o ”tempo apropriado”. Talvez se pudesse compará-los a um contador de minutos que soa o toque de campainha para dizer se o ovo está quente ou cozido.


Aqui, a quantidade do tempo não é abstrata, mas sim norteada por uma qualidade específica. O tempo astronômico do ”trabalho abstrato”, ao contrário, destaca-se de toda qualidade. A diferença é visível também quando lemos por exemplo em documentos medievais que a jornada de trabalho dos servos nas glebas devia durar ”da alvorada até o meio-dia”. Ou seja, a jornada de trabalho era mais reduzida do que hoje não apenas em termos absolutos, mas também relativos, por variar conforme a estação e ser menor no inverno que no verão. A hora astronômica abstrata, por sua vez, permitiu fixar o início da jornada ”às 6 horas”, sem considerar as estações do ano nem os ritmos do corpo.


Eis por que a época do capitalismo é também a era dos ”despertadores”, dos relógios que, a um toque estridente, arrancam os homens ao sono para impeli-los a locais de trabalho banhados em luz artificial. E, uma vez antecipado o início da jornada para a noite, nada mais óbvio do que avançar o fim da jornada noite adentro. Essa mudança possui também seu lado estético. Como o meio ambiente é de certo modo ”desmaterializado” pela racionalidade empresarial, já que a matéria e suas correlações têm de submeter-se aos critérios de rentabilidade, ele também é privado de sua dimensão e proporção por esta mesma racionalidade. Quando por vezes certos edifícios antigos nos parecem de algum modo mais belos e confortáveis do que os modernos, e quando então declaramos que eles, em comparação aos atuais edifícios ”funcionais”, nos impressionam de algum modo como irregulares, isso remonta ao fato de que suas medidas são apropriadas às medidas corporais e suas formas, às da paisagem. A arquitetura moderna, pelo contrário, utiliza medidas astronômicas de espaço e formas ”descontextualizadas”, ”destacadas” do meio circundante. O mesmo vale para o tempo. Também a moderna arquitetura do tempo se encontra despida de proporção e contexto. Não apenas o espaço tornou-se mais feio, mas também o tempo.


Nos séculos 18 e início do 19, tanto o prolongamento absoluto quanto o relativo da jornada de trabalho, por meio da introdução da hora astronômica abstrata, foram sentidos como uma tortura. Por muito tempo, houve uma luta desesperada contra o trabalho noturno ligado à industrialização. Trabalhar antes do amanhecer e após o crepúsculo era, por assim dizer, imoral. Quando na Idade Média calhava de os artesãos trabalharem à noite por razões de prazo, cabiam-lhes lautos repastos e salários principescos. O trabalho noturno era uma rara exceção. E consta das ”grandes” façanhas do capitalismo ter logrado converter o aguilhão do tempo em regra geral da atividade humana.


Nada mudou com a paulatina redução da jornada absoluta de trabalho desde os primórdios do capitalismo. Pelo contrário, o chamado trabalho por turnos ampliou-se cada vez mais no século 20. Com auxílio de dois ou mesmo três turnos, as máquinas são mantidas em funcionamento quase ininterrupto, com breves pausas para a troca de pessoal, manutenção e limpeza. Lojas e magazines também devem estender ao máximo seu horário, beirando o limite das 24 horas. Na Alemanha, este ano, tivemos um debate sobre o horário legal de fechamento do comércio, que até há pouco estava fixado no patamar das 18h30. E desde 1º de novembro de 1996 prolongou-se até às 20h. Em muitos países, como nos Estados Unidos, não há horário de fechamento definido em lei, e inúmeros estabelecimentos ostentam a tabuleta: ”Aberto 24h”. Desde que a tecnologia microeletrônica de comunicação globalizou o fluxo monetário, a jornada financeira transita sem interrupção de um hemisfério a outro. ”Os mercados financeiros nunca dormem”, diz o anúncio de um banco japonês.


É a luz da razão iluminista que clareia os turnos da noite. À medida que a concorrência se faz total, o imperativo externo e social transforma-se também numa coação interna do indivíduo. O sono passa a ser um inimigo tão sórdido quanto a noite, pois enquanto se dorme, oportunidades são perdidas e a guarda é irremediavelmente baixada ao ataque alheio. O sono dos indivíduos em uma economia de mercado torna-se cada vez mais curto e leve, como o de um animal selvagem _e isso na proporção direta do seu desejo de ”sucesso”. O tormento do trabalho noturno mecânico, imposto por outrem, manifesta-se ao nível da administração como recusa ”voluntária” ao sono. Existem até seminários nos quais se faculta o exercício de técnicas de minimização do sono. Com pia seriedade, os alunos de administração hoje afirmam: ”O empresário ideal nunca dorme” _exatamente como os mercados financeiros!


Ora, a submissão do homem ao ”trabalho abstrato” e à sua medida temporal astronômica é impossível sem um controle total. Controle universal requer igualmente observação universal, e a observação só é possível na luz: pouco mais ou menos como a polícia, no interrogatório, dirige um facho de luz ao rosto do delinquente. Não por acaso o termo ”iluminismo”, em alemão, possui uma acepção militar, qual seja, o ”reconhecimento do inimigo”. E uma sociedade em que cada um torna-se inimigo dos demais e dele próprio, pois a todos cabe servir o mesmo Deus laicizado do capital, converte-se com fatalidade lógica num sistema de observação e auto-observação total.


Num universo mecânico, também o homem tem de ser máquina e padecer o tratamento da maquinaria. A luz do Iluminismo aprestou-o para tanto e o fez ”transparente”. O filósofo francês Michel Foucault revela em seu livro ”Vigiar e Punir” (1975) como essa ”visibilidade” total tornou-se uma armadilha histórica. Em princípios do século 19, o capitalismo ainda ensaiava a observação total por meio de uma ”pedagogia penitenciária”, nos moldes desenvolvidos pelo filósofo utilitarista e liberal Jeremy Bentham (1748-1832), como um atilado sistema de organização, de punição e até de arquitetura para presídios, fábricas, escritórios, hospitais, escolas e reformatórios.


A esfera pública do mercado não é propriamente o âmbito da livre comunicação, mas uma esfera da observação e do controle. Isso nos recorda da utopia negativa ”1984”, de George Orwell. Se esse controle, nas ditaduras totalitárias, era exercido externamente pelo aparato burocrático do Estado e da polícia, na democracia ele tornou-se autocontrole introjetado, suplementado pela mídia comercial, na qual os holofotes dos campos de concentração transmudaram-se nas luminárias de uma gigantesca feira a varejo. Aqui não se discute livremente, mas se irradia luz sem misericórdia. Na democracia comercial, um tal sistema refinou-se a ponto de os indivíduos já obedecerem por si próprios aos imperativos capitalistas e seguirem o sulco das pegadas como robôs programados.


O marxismo, em contraste à sua própria pretensão social, foi um protagonista do ”trabalho abstrato”, à medida que sucumbiu ao pensamento mecanicista do Iluminismo e a seu pérfido simbolismo da luz. Tudo que havia de despótico no marxismo advinha do liberalismo iluminista. Já os românticos, por outro lado, interessados em fazer jus à face obscura da verdade, não se aliaram à emancipação social, mas à reação política. Só quando libertos desse cárcere reacionário, a noite, o sono e o sonho poderão ser lemas emancipatórios da crítica social. A resistência ao mercado total talvez comece quando os homens se derem inopinadamente o direito de ao menos uma vez dormir à saciedade.

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