Homem que olha o céu

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Homem que olha o céu (Mario Benedetti)

Do livro “Inventário”
Tradução de Julio Luís Gehlen

Enquanto passa a estrela fugaz
junto neste desejo instantâneo
montes de desejos profundos e prioritários
por exemplo que a dor não me apague a raiva
que a alegria não desarme meu amor
que os assassinos do povo engulam
seus molares caninos e incisivos
e se mordam sensatamente o fígado
que as grades das celas
se tornem de açúcar ou se curvem de piedade
e meus irmãos possam fazer de novo
o amor e a revolução
que quando enfrentarmos o implacável espelho
não maldigamos nem nos maldigamos
que os justos avancem
mesmo que estejam imperfeitos e feridos
que avancem porfiados como castores
solidários como abelhas
aguerridos como jaguares
e empunhem todos seus nãos
para instalar a grande afirmação
que a morte perca sua asquerosa pontualidade
que quando o coração saia do peito
possa encontrar o caminho de regresso
que a morte perca sua asquerosa
e brutal pontualidade
mas se chega pontual não nos encontre
mortos de vergonha
que o ar volte a ser respirável e de todos
e que você mocinha continue alegre e dolorida
pendo em seus olhos a alma
e sua mão em minha mão
e nada mais
porque o céu já está de novo turvo
e sem estrelas
com helicópteros e sem deus.

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