Os formais e o frio

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Os formais e o frio (Mario Benedetti)

Do livro “Inventário”
Tradução de Julio Luís Gehlen
OS FORMAIS E O FRIO

Quem iria prever que o amor esse informal
se dedicaria a eles tão formais

enquanto almoçavam pela primeira vez
ela muito lenta e ele nem tanto
e falavam com suspeita objetividade
de grandes temas em dois volumes
seu sorriso o dela
era como um agouro ou uma fábula
seu olhar o dele notava
como eram seus olhos os dela
porém suas palavras as dele
não se davam conta dessas doces questões
como sempre ou como quase sempre
a política levou à cultura

de modo que à noite assistiram ao teatro
sem tocar-se uma unha ou um botão
nem mesmo uma fivela ou uma manga
e como ao sair fazia muito frio
e ela não usava meias
só sandálias por onde apareciam
uns dedos muito brancos e indefesos
foi preciso entrar num boteco

e já que o garçom demorava tanto
optaram pela confidência
extra seca e sem gelo por favor
quando chegaram na casa dela
e o frio estava nos lábios dele
de modo que ela fábula e agouro
lhe deu refúgio e café instantâneos

uma hora apenas de biografia e saudades
até que enfim sobreveio um silêncio
como se sabe nesses casos é duro
dizer algo que realmente não sobre

ele tentou só falta que eu durma aqui
e ela tentou porque você não fica
e ele não me diga duas vezes
e ela bem por que não fica

de maneira que ele ficou a princípio
a beijar sem usura seus pés frios os dela
depois ela beijou os seus lábios os dele
que a essa altura já não estavam tão frios
e assim por diante
enquanto os grandes temas
dormiam o sono que eles não dormiram.

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