As atas do rancor

Print Friendly, PDF & Email

As atas do rancor (Mario Benedetti)

Do livro “Perguntas ao acaso”
Tradução de Julio Luís Gehlen

Pouco a pouco o rancor vai me invadindo
animaliza minha anima lisa
me empresta garras iras maldições
me sobressalta a paciência boba
dá brilho ao ódio como para abutres
me põe em áscuas e ascos

abro o livro e aprendo
a história do rancor seus pormenores
seus desenvolvimentos e suas pautas
seus herdados instrumentos

mesmo assim me espera uma surpresa
quando fecho o breviário
fica entre minhas mãos
uma beira desarmada e desalmada
um rastro tão tedioso
sem prestígio e sem medula

então me reduzo ao que sou
vazio de ferramentas culturais
fecho os olhos mas
que vou fazer
não sonho com perdões.

Publicações relacionadas

Na rua em funeral ei-la que pa... Na rua em funeral ei-la que passa (Augusto dos Anjos) Soneto (Le...
Supreme Convulsion Supreme Convulsion (Augusto dos Anjos) O equilíbrio do humano pensamento Sof...
Canción del jinete Canción del jinete (Federico Garcia Lorca) Córdoba. Lejana y sola. Jaca...
Leve Leve (Alberto Caeiro) De O Guardado...

Deixe uma resposta