Bárbaro

Print Friendly, PDF & Email

Bárbaro (Mário de Sá Carneiro)

Enroscam-se-lhe ao trono as serpentes doiradas
Que, César, mandei vir dos meus viveiros de África.
Mima a luxúria a nua — Salomé asiática…
Em volta, carne a arder — virgens supliciadas…

Mitrado de oiro e lua, em meu trono de esfinges —
Dentes rangendo, olhos de insónia e maldição —
Os teus coleios vis, nas infâmias que finges,
Alastram-se-me em febre e em garras de leão.

Sibilam os répteis… Rojas-te de joelhos…
Sangue e escorre já da boca profanada…
Como bailas o vício, ó torpe, ó debochada —
Densos sabbats de cio teus frenesis vermelhos…

Mas ergues-te num espasmo — e às serpentes domas
Dando-lhes a trincar teu sexo nu, aberto…
As tranças desprendeste… O teu cabelo, incerto,
Inflama agora um halo a crispações e aromas…

Embalde mando arder as mirras consagradas:
O ar apodreceu da tua perversão…
Tenho medo de ti num calafrio de espadas —
A minha carne soa a bronzes de prisão…

Arqueia-me o delírio — e sufoco, esbracejo…
A luz enrijeceu zebrada em planos de aço…
A sangue se virgula e se desdobra o espaço…
Tudo é loucura já quanto em redor alvejo!…

Traço o manto e, num salto, entre uma luz que corta,
Caio sobre a maldita… Apunhalo-a em estertor..
………………………………………….
— Não sei quem tenho aos pés: se a dançarina morta,
Ou a minha Alma só que me explodiu de cor…

Publicações relacionadas

Saudação Saudação (Adélia Prado) Ave, Maria! Ave, carne florescida em Jesus. Ave, s...
Os dias da Comuna Os dias da Comuna (Bertold Brecht) Traduçã...
Tu Tu (Vladmir Maiakowski) Tradução de E. Carrera Gu...
O Suicida O Suicida (Jorge Luis Borges) Tradução Não restará na noite uma estrela. ...

Deixe uma resposta