De profundis clamavi (Charles Pierre Baudelaire)
Tradução de Wenceslau de Queiroz
Exoro-te piedade, imploro-te socorro.
Deste abismo onde jaz meu frio coração,
Onde vivo a morrer, onde a viver eu morro,
Cheia a boca de fel, de horror, de maldição…
É uma região polar que em lágrimas percorro,
Com os pés sobre a neve, o olhar na escuridão,
Que encobre o céu azul, como chumbado forro:
Um país sem calor e sem vegetação.
Acontece porem, que a luz de um sol de gelo
Traspassa alguma vez a escuridão polar,
Como se trespassasse um álgido cutelo…
E sinto em cada fibra um urso branco a uivar,
– Trôpego o passo, o olhar em chamas, hirsuto o pêlo, –
Com fome do teu beijo, arcanjo tutelar!