O poema do frade

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O poema do frade (Álvares de Azevedo)

Fragmentos interligados

Meu herói é um moço preguiçoso
Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor… se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura.
Era pálido sim. . . mas não d’estudo:
No mais . . era um devasso e disse tudo!

Dizer que era poeta—é cousa velha!
No século da luz assim é todo
O que herói de novelas assemelha.
Vemos agora a poesia a rodo!
Nem há nos botequins face vermelha,
Amarelo caixeiro, alma de lado,
Nem Bocage d’esquina, vate imundo,
Que não se creia um Dante vagabundo!

O meu não era assim: não se imprimia,
Nem versos no teatro declamava!
Só quando o fogo do licor corria
Da fronte no palor que avermelhava,
Com as convulsas mãos a taça enchia.
Então a inspiração lhe afervorava
E do vinho no! eflúvio e nos ressábios
Vinha o fogo do gênio à flor dos lábios!

Se era nobre ou plebeu, ou rico ou pobre
Não vos direi também: que importa o manto
Se é belo o cavaleiro que ele cobre?
E que importa o passado, um nome santo
De pútridos avós? plebeu ou nobre
Somente a raiva lhe acordava o pranto.
Embuçada no orgulho a fronte erguia
E do povo e dos reis escarnecia!

Não se lançara nas plebéias lutas,
Nem nas falanges do passado herdeiras,
No turbilhão das multidões hirsutas,
Não se enlaivou da pátria nas sangueiras,
Nem da praça no pó das vis disputas!
Sonhava sim em tradições guerreiras,
Nos cânticos de bardo sublimado…
Mas nas épicas sombras do passado.

O presente julgava um mar de lama
Onde vis ambições se debatiam,
Ruína imunda que lambera a chama,
Cadáver que aves fétidas roíam!
Tudo sentiu venal! e ingrata a fama!
Como torrentes trépidas corriam
As glórias, tradições, coroas soltas
De um mar de infâmias às marés revoltas!

Não quisera mirar a face bela
Nesse espelho de lodo ensangüentado!
A embriaguez preferia: em meio dela
Não viriam cuspir-lhe o seu passado!
Como em nevoento mar perdida vela
Nos vapores do vinho assombreado
Preferia das noites na demência
Boiar (como um cadáver!) na existência!

Uma vez o escutei: todos dormiam—
Junto à mesa deserta e quase escura:
Lembranças do passado lhe volviam;
Não podia dormir! Na festa impura
Fora afogar escárnios que doíam. . .
Não o pode: dos lábios na amargura
Ouvi-lhe um murmurar. . Eram sentidas
Agonias das noites consumidas!

Olvidei a canção: só lembro dela
Que d’alma a languidez a estremecia:
Como um anjo num sonho de donzela
Sobre o peito a guitarra lhe gemia!
E quando à frouxa lua, da janela,
Cheia a face de lágrimas erguia,
Como as brisas do amor lhe palpitavam
Os lábios no palor que bafejavam!

Amar, beber, dormir, eis o que amava:
Perfumava de amor a vida inteira,
Como o cantor de Don Juan pensava
Que é da vida o melhor a bebedeira. . .
E a sua filosofia executava. . .
Como Alfred Musset, a tanta asneira
Acrescento porém… juro o que digo!
Não se parece Jônatas comigo.

Prometi um poema, e nesse dia
Em que a tanto obriguei a minha idéia
Não prometi por certo a biografia
Do sublime cantor desta Epopéia.
Consagro a outro fim minha harmonia
Por favor cantarei nesta Odisséia
De Jônatas a glória não sabida
Mas não quero contar a minha vida.

Basta! foi longo o prólogo confesso!
Mas é preciso à casa uma fachada,
A fronte da mulher um adereço,
No muro um lampião à torta escada!
E agora desse canto me despeço
Com a face de lágrimas banhada,
Qual o moço Don Juan no enjôo rola
Chorando sobre a carta da Espanhola.1

Mas eu sei: que senti o amor ardente
Convulsivo bater num peito exausto!
Sei: que senti a lágrima tremente
Como na insana palidez o Fausto!
Quando o sono fugia às noites minhas
Como às nuvens do inverno as andorinhas.

Bebi-a essa tristeza, essa doença
Que nos escalda lágrimas sombrias,
Que nos revolve sós na vaga imensa
Do Oceano das internas agonias!
Que empalidece a face e morte lenta
Nos estampa na fronte macilenta.

Ah! virgem das canções, entre vapores
És pura e bela sim, porém teus lábios
Me fazem delirar como licores
Que afervoram-nos tépidos ressábios!
Quando em teu colo vou deitar-me agora
Teu palpitar as faces me descora!

E cedo morrerei: sinto-o, nas veias
O meu sangue se escoa vagaroso
Como um rio que seca nas areias,
Como donzela, que desmaia em gozo!
Teus lábios, fada minha, me queimaram,
E as lânguidas artérias me esgotaram!

Mas que importa nas sombras da existência
Se mentiu-me o sonhar quando eu sentia
Um dos pálidos anjos de inocência
Pousar-me a face ao peito que gemia,
Se num sonho de amor, em noite bela
Nos suspiros do mar amei com ela!

Era uma lua pálida e sombria
Que seu leito nas ondas embalava
Na mão de neve a face lhe pendia;
E nos sonhos a virgem se enlevava!
E, que estrelas no céu! e que ardentia!
Que perfume seu véu estremecia!

E que sonhos, meu Deus! e que ventura!
E que vento de amores palpitava
Na escuma do batel a vaga pura
E lascivos suspiros lhe arrulhava!. . .
E em torno mar e céu—a noite bela,
Nos meus braços a inânida donzela!

Ah! virgem das canções, aos brancos lírios
Por que tão cedo me chover na infância
O mágico sereno dos delírios
Que adormece, embalsama na fragrância?
E do amor entre os lânguidos conselhos
Minha fronte embalar nos teus joelhos?

Por que tão cedo o vinho da harmonia
Nos beiços infantis correu-me aos sonhos,
Entornou-me essa nuvem que inebria,
Que gela o riso aos lábios meus risonhos?
Tão quedo o sono meu, por que turvá-lo,
E de ilusões esplêndidas povoá-lo?

E tão cedo! por que encher meu leito
Destas sombras suaves, delirantes?
E na harpa adormecida de meu peito
Suspirarem-me sons tão ofegantes?
E por que não deixar o meu sentir
Da infância d’oiro nos frouxéis dormir?

E assim eu morrerei: co’a sede ainda
Amargosa no lábio ressicado!
Cansando os olhos na extensão infinda,
Perguntando se a crença do passado
Também verei no lodo revolvida. . .
E como tu sufocarei a vida!…

É sombrio, confesso-vos, meu canto:
E obscuro demais, o que é defeito!
Mas é um sonho apenas que recanto,
Que em noite longa me gelou no leito—
Sonho de febre, insano pesadelo
Que à fronte me deixou pálido selo!

Não teve o Dante mágoa mais profunda
Quando na sombra ergueu o condenado,
De um crânio carcomido a boca imunda
E enxugou-a em cabelo ensangüentado:
E contou sua lívida vingança
Na mansão da eternal desesperança!

Nem mais estremeceu quando o passado
Do túmulo na sânie revivia. . .
Quando o velho rugindo sufocado
De fome e raiva ainda se torcia. . .
Como quando as crianças se mordiam,
E ardentes, moribundas, pão! pediam!

Quando contou as noites regeladas
E o ar da podridão. . . e a fome impura
Saciando nas carnes desnervadas
De seus filhos. . . de sua criatura!
Como a pantera emagrecida come
Os filhos mortos p’ra cevar a fome!

Acordei ao tremer de calafrios
Com o peito de mágoas transbordando;
Enxuguei com a mão suores frios
Que sentia na face porejando!
E um dia o pesadelo que eu sentira
Mesclou-se aos moles sons de minha lira.

Mesclou-se como ao vinho um ditirambo,
Ao farfalhar de Pança 3 um velho adágio,
Às alvas flores se mistura o jambo
E um ósculo de amor em um naufrágio.
—Creio que vou dizer alguma asneira. . .
Como o nome de Deus à bebedeira!

Escrevi o meu sonho. Nas estâncias
Há lágrimas e beijos e ironias,
Como de noite muda nas fragrâncias
Perde-se um ai de ignotas agonias!
Tudo é assim—no sonho o pesadelo,
—Em almas de Madona quanto gelo!

É assim o viver. Por noite bela
Não durmas ao relento na janela
Contemplando o luar e o mar dormente.
Poderá apanha-te de repente
Fria constipação, febre amarela,
Ou alguma prosaica dor num dente!

Vai, c’oa mão sobre o peito macilento
Curvado como um velho peregrino,
Vai, tu que sofres, implorar—sedento
Um remédio de amor a teu destino!. . .
Um doutor sanará o teu tormento
Com três xícaras d’óleo de rícino

Eu vi, eu vi um tipo de Madona
Que os ares perfumava de beleza:
Que suave mulher! ah! não ressona
Uma virgem de Deus com tal pureza!
Era um lago a dormir… na flor sereno!
Porém sua água azul tinha veneno!

E agora—boa-noite! eu me despeço
Desta vez para sempre do poema:
Como soberbo sou, perdões não peço.
Mas como sou chorão, deixai que gema,
Que dê largas a est’alma intumescida
Na dor de tão solene despedida!

Que prantos! que suspiros sufocados!
Se eu gostasse dos versos eloqüentes,
Como eu descreveria bem rimados
Do meu peito os anélitos frementes!
Porém nos seios eu sufoco tudo,
Porque da mágoa o serafim é mudo.

Silêncio, coração que a dor inflama!
Além do escárnio, sons! quero o meu leito
Das lágrimas banhar que a dor derrama!
Quero chorar! quero chorar! meu peito!
Dizer adeus ao sonho que eu sentira,
Sem profanar as ilusões na lira!

Eu não as profanei! guardo-as sentidas
Nas longas noites do cismar aéreo,
Guardo-as na esperança, nas doridas
Horas que amor perfuma de mistério!
Sem remorso, nem dor, aos sonhos meus
Eu posso ainda murmurar—adeus!!

Ah! que na lira se arrebente a corda
Quando profana mão os sons lhe acorda!
E o pobre sonhador a fantasia,
O sonho que ama e beija noite e dia
Não saiba traduzir, quando transborda
Seu peito dos alentos da harmonia!

Que não possa gemer a voz saudosa
Como o sopro dos ventos avendiços,
Como a noite que exala-se amorosa!
Como o gemer dos ramos dobradiços!
Para exprimir os pensamentos meus
Nos cantos melancólicos do adeus!

Adeus! . . é renunciar numa agonia
A esperança que ainda nos palpita;
Sentir que os olhos cegam-se, que esfria
O coração na lágrima maldita!
Que inteiriçam as mãos, e a alma aflita
Como Ágar no deserto ora sombria!

Sentir que tudo em nós se gela e chora,
E o coração de lágrimas se vela!
E a natureza além revive agora,
E a existência por viver, mais bela
Novas delícias, novo amor revela
Do luzente porvir na roxa aurora!

Sentir que se era poeta… à brisa errante
Bebendo eflúvio que ninguém respira,
Pressentindo à donzela palpitante
Os enlevos, os ais, e o sonho amante
Que nos beija no berço sussurrante,
E o perfume que a música transpira!

Adeus! é uma gota de mistério
Que Deus nos orvalhou como sereno!
É a dor volutuosa—o bafo aéreo
Que derrama perfumes e veneno!
E a cisma que rola, que resvala,
Que os pensamentos no desejo embala!

Saibo do céu que aviva na lembrança
Que é um filho de Deus o moribundo
A quem se fana a tímida esperança!
Que é dos anjos irmão e que é no fundo
Do Oceano do viver, que o vagabundo
A pérola do amor talvez alcança.

E as crenças sentir uma por uma
Que se adormecem e o batel da vida
No Oceano escuro cobre-se d’escuma
E se afunda no mar e dolorida
A alma do marinheiro empalecida
Ao arrebol da morte se perfuma!

Adeus! tudo que amei! o vento frio
Sobre as ondas revoltas me arrebata,
Além a terra perde-se o navio
Trilha nos mares sobre um chão de prata!
Adeus! tudo que amei, que me retrata
Inda a saudade ao terno desvario!

Meu céu! minhas montanhas verdejantes!
Cetim azul da lânguida baía!
Manhas cheias de brisas sussurrantes,
Noites cheias de estrelas e ardentia!
Oh! noite de luar! oh! melodias
Que nas folhas gemeis,; ventos errantes!

Vales cheirosos onde a infância minha
Virgem peregrinou entre mil sonhos!
Noites, luas, estrelas da noitinha
Que os lábios entrebristes-me risonhos,
E orvalháveis de morno sentimento
A aberta flor do coração sedento!

Silêncio que eu amei, que eu procurava
Na varanda romântica e sombria,
Sorvendo dentro em mim ar que sentia
Na fresca viração que se acordava!
Suspirando a cismar nessa atonia
Que de amor minhas pálpebras banhava!

Sobre as colunas o luar batendo
E nas palmeiras úmidas tremendo
Filtrava-me sossego, e o mole engano
Em que se abisma o pensamento insano,
Que empalece da noite os sons bebendo
E harmonias escuta no Oceano!

E vós, águas do mar, que me embalava
Ao som dos remos da gentil falua!
Onde a fronte de escumas se banhava,
E à morta luz da vagabunda lua
Cismava como a nuvem que flutua
Do escravo à nênia estranha que soava!

Oh! minha terra! oh! tarde recendente
Que embalsamando vens com teus cabelos
Derramados à luz! O sol ardente
Como os lábios do amor! luares belos
Como das flores de laranja o cheiro
Que perfumam da noiva o travesseiro!

E adeus, vós que eu amei, que inda sentidas
As ilusões me acordam na tristeza!
Que inda choro nas minhas despedidas!
Belas dos sonhos! anjos de beleza!
Morenas a quem banha a morbidezza!
Como as rosas da noiva empalecidas

Ai todos vos sonhei cândidos seios
Onde amor pranteara delirante!
Onde gemera em derretido enleio
Como em seios de mãe sedento infante!
Águas místicas aonde estrelas santas
Deixaram trilhos das argênteas plantas!

Como o triste Alcion vagueia errante
Nas frias primaveras do Oceano
E ama as alvas, a noite sussurrante,
Tardes, ondas e sol e leviano
Na leviana afeição embriaga insano
A existência nos seios o inconstante!

Eu todos vos amei! cri no mistério
Que o libertino Don Juan levava,
Nas noites profanadas do adultério,
Quando a alma sedenta evaporava!
E a vida como um alaúde aéreo
A todos os alentos entregava!

Terra do amor! ó minha mãe! na vida
Se o fado me levar em mágoa lenta—
Sempre nesta saudade esmorecida
Que de tristes lembranças se alimenta!—
Na morte a minha fronte macilenta,
Inda a ti volverei qual flor à vida!

Viverei do que foi—dos sonhos meus!—
Da seiva do passado hei de essa flor
Regar das quentes lágrimas do amor!
E quando a luz apague-se nos céus
E o frio coração à dor sucumba
Inda murmurarei—adeus!—da tumba,

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