Os homens

Print Friendly, PDF & Email

Os homens (Cora Coralina)

Em água e vinho se definem os homens.

Homem água. È aquele fácil e comunicativo.
Corrente, abordável, servidor e humano.
Aberto a um pedido, a um favor,
ajuda em hora difícil de um amigo, mesmo estranho.
Dá o que tem
– boa vontade constante, mesmo dinheiro, se o tem.
Não espera restituição nem recompensa.

É como água corrente e ofertante,
encontradiça nos descampados de uma viagem.
Despoluída, límpida e mansa.
Serve a animais e vegetais.
Vai levada a engenhos domésticos em regueiras,
represas e açudes.
Aproveitada, não diminui seu valor, nem cobra
preço.
Conspurcada seja, se alimpa pela graça de Deus
que assim a fez, servindo sempre
e à sua semelhança fez certos homens que
encontramos na vida
– os Bons da Terra – Mansos de Coração.
Água pura da humanidade.

Há também, lado-a-lado, o homem vinho.
Fechado nos seus valores inegáveis e nobreza
reconhecida.
Arrolhado seu espírito de conteúdo excelente em
todos os sentidos.
Resguardados seus méritos indiscutíveis.
Oferecido em pequenos cálices de cristal a amigos
e visitantes excelsos, privilegiados.

Não abordável, nem fácil sua confiança.
Correto. Lacrado.
Tem lugar marcado na sociedade humana.
Rigoroso.
Não se deixa conduzir – conduz.
Não improvisa – estuda, comprova.
Não aceita que o golpeiam,
defende-se antecipadamente.
Metódico, estudioso, ciente.

Há de permeio o homem vinagre,
uma réstia deles,
mas com esses não vamos perder espaço.
Há lugar na vida para todos.
Em qual dos grupos se julga situado você, leitor
amigo?

Publicações relacionadas

Modinha do Empregado de Banco Modinha do Empregado de Banco (Murilo Mendes) Eu sou triste como um prático d...
Inviation au Voyage Inviation au Voyage (Charles Pierre Baudelaire) Tradução de Felipe D’Olivei...
Descobrimento Descobrimento (Carlos Drummond de Andrade) Abancado à escrivaninha em São Pau...
Últimas lamentaciones de Abel ... Últimas lamentaciones de Abel Martín (Antonio Machado) Hoy, con la primavera,...

Deixe uma resposta