Permanência

Print Friendly, PDF & Email

Permanência (Adolfo Casais Monteiro)

Não peçam aos poetas um caminho. O poeta
não sabe nada de geografia celestial.
Anda aos encontrões da realidade
sem acertar o tempo com o espaço.
Os relógios e as fronteiras não tem
tradução na sua língua. Falta-lhe
o amor da convenção em que nas outras
as palavras fingem de certezas.

O poeta lê apenas os sinais
da terra. Seus passos cobrem
apenas distâncias de amor e
de presença. Sabe
apenas inúteis palavras de consolo
e mágoa pelo inútil. Conhece
apenas do tempo o já perdido; do amor
a câmara escura sem revelações; do espaço
o silêncio de um vôo pairando
em toda a parte.

Cego entre as veredas obscuras é ninguém e nada sabe
– morto redivivo.
Tudo é simples para quem
adia sempre o momento
de olhar de frente a ameaça
de quanto não tem resposta.

Tudo é nada para quem
descreu de si e do mundo
e de olhos cegos vai dizendo:
Não há o que não entendo.

Publicações relacionadas

A donzela e o fantasma –... A donzela e o fantasma - VI (Oscar Wilde) CAPÍTULO VI Daí a dez minutos, a s...
A alma do homem sob o socialis... A alma do homem sob o socialismo (Oscar Wilde) " A educação é uma coisa admir...
Ode ao Burguês Ode ao Burguês (Mário de Andrade) Eu insulto o burgês! O burguês-níquel, o ...
Se Quiserem que Eu Tenha um Mi... Se Quiserem que Eu Tenha um Misticismo (Alberto Caeiro) ...

Deixe uma resposta