A derradeira enfermidade

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A derradeira enfermidade

(Robert Kurz)

Publicado em 04/05/97 no caderno Mais! da Folha de São Paulo.

Com o poder esfacelado, o Estado albanês atinge seu estágio terminal.

Mesmo na Europa, pouquíssimos sabem onde fica exatamente a Albânia. ”Em algum lugar nos Balcãs.” O pequeno país (3,2 milhões de habitantes), um dos muitos produtos da fragmentação do Império Otomano, declarou-se independente em 1912.

No ano seguinte, as suas fronteiras foram demarcadas um tanto arbitrariamente pelas grandes potências da época, de forma que hoje grande parte dos albaneses vive fora de seu Estado de origem, na Macedônia e sobretudo na província de Kosovo, pertencente ao que restou da Iugoslávia _um outro foco de distúrbios nesta região abalada pela crise.

Durante a Segunda Guerra Mundial, como na Iugoslávia, os partidários da resistência de orientação comunista lutaram contra a ocupação alemã no intransitável solo montanhoso albanês e subiram ao poder depois da paz. E, a exemplo de Tito na Iugoslávia, o chefe do Partido Comunista e antigo líder da resistência, Enver Hoxha, estabeleceu na Albânia uma ditadura estatal e socialista de recuperação. Apoiado em riquezas naturais, como carvão, minério de ferro, cromo, petróleo e betume, o regime de Hoxha empreendeu uma industrialização forçada.

Com ajuda soviética e depois chinesa, surgiram conglomerados de indústria pesada, maquinaria, produção têxtil etc. Mas, novamente em paralelo com a Iugoslávia, a partir dos anos 70 a Albânia não pôde mais se sustentar no mercado mundial. Com a proibição de qualquer endividamento externo e com o rígido isolamento, o regime buscou evitar uma crise econômica. A Albânia transformou-se no último bastião do stalinismo e no exótico país feérico da Europa, onde até mesmo os automóveis eram proibidos. Inversamente, para os albaneses o sul da Itália, de que eles estão separados apenas por uma estreita faixa de 60 km de Mar Adriático, parecia o terreno feérico do consumo ocidental.

Os sinais da televisão italiana são facilmente captados em toda parte; assim, as pessoas socialmente cansadas da ditadura partidária, bem como a população dos demais países do Leste Europeu, voltaram-se para a cintilante fachada de TV do Ocidente.Quando Enver Hoxha morreu, em 1985, o regime começou a perder sua força. Cautelosas tentativas de abertura, sob pressão do povo insatisfeito, e a crescente oposição tornaram manifesta a fraqueza econômica. De um lado, muitos jovens albaneses passaram a gerar divisas com o trabalho temporário na Grécia, Itália e outros países ocidentais; de outro, a economia albanesa foi vítima de uma ruptura catastrófica: em 1991, a produção industrial, incapaz de suster-se internacionalmente, caiu em 60%; o desemprego subiu a 70% e o país amargou ainda uma grave crise na balança de pagamento; desde então, as dívidas externas, que aumentaram vertiginosamente num curto espaço de tempo, fugiram totalmente ao controle.

O preço para a abertura e para a oportunidade de uma ínfima minoria ”tentar a sorte” nos países do Ocidente foi portanto a perda de toda a reprodução econômica independente. Devido às dimensões reduzidas do país e à estreita base industrial, o colapso pareceu muito mais drástico que noutros Estados do Leste Europeu. Súbito, a população desmoralizada passou a depender em grande parte das remessas de seus parentes com emprego no exterior. De setembro de 1991 até março de 1992 foram relatados protestos da massa oposicionista na capital, Tirana, e revoltas de esfaimados em diversas regiões do país; alguns depósitos estatais de alimentos acabaram sendo pilhados.As ondas de protestos guindaram ao poder o recém-fundado Partido Democrático, que em fins de março de 1992 ganhou a eleição com 66% dos votos e fez de seu presidente, Salih Berisha, o novo chefe da nação. O Partido Socialista, oriundo do PC stalinista, foi lançado à oposição. Em escala reduzida, a Albânia parecia percorrer o mesmo processo dos demais países do antigo bloco do Leste Europeu: enquanto a economia declinava sob a pressão do mercado mundial e a população era polarizada socialmente, a elite burocrática dominante do socialismo estatal _agora com códigos ideológicos inversos_ cindia-se de um lado numa vertente conservadora e de direita, radicalmente partidária da economia de mercado, e, de outro, numa vertente social-democrata, que se dava ares de moderada no tocante a essa economia.

Dentro destes moldes, em toda a Europa oriental depois da grande virada desenrola-se um espetáculo socialmente trágico e politicamente cômico. A grande maioria aspira tão-somente à prosperidade do mercado e a novos empregos competitivos. Ninguém nem sequer imagina alternativas sociais e econômicas. E ninguém quer admitir que a própria miséria é parte de uma crise universal, que há muito atingiu também os países do núcleo ocidental. Esperanças irracionais na sociedade de mercado passam por cima do fato de que nenhum dos ”Estados em reforma” do Leste Europeu pode investir capital suficiente para reintegrar a maioria da população ao sistema industrial competitivo _muito menos a Albânia. Todo governo, não importa de que tendência, pode somente executar em seu próprio povo o surdo veredicto do mercado e, sob a égide do Fundo Monetário Internacional (FMI), implementar uma impiedosa política de ”austeridade”. O partido do governo é tomado então como responsável pela gritante contradição entre esperança e realidade econômica, e a oposição é erguida ao poder por meio de protestos de massa, até que as frentes se invertam novamente e o mesmo jogo recomece do início, agora com sinais trocados. Temos assim em vários países do Leste Europeu o espetáculo grotesco de periódicas manifestações de massa, que se dirigem ora contra os ”socialistas” e ex-stalinistas, ora contra os igualmente ex-stalinistas ”democratas” e ”reformadores radicais” da economia de mercado.

Na Albânia, as coisas pareciam à primeira vista tomar outro rumo. O presidente Berisha, um cardiologista que pertencera ao cerne da “nomenklatura” stalinista a título de médico pessoal de Enver Hoxha, declarou-se subitamente como ”papa-comunistas” e fundou um regime unipartidário autocrático. O presidente dos socialistas, Fatos Nano, foi lançado à prisão sem processo jurídico; também contra outros membros proeminentes do partido da oposição foram movidos processos de grande repercussão pública, bem ao estilo stalinista, mas sob a bandeira da economia de mercado e da democracia. Segundo relatos de observadores insuspeitos, as eleições de maio de 1996 foram massivamente fraudadas em proveito de Berisha. Nesse clima pouco confiável, o regime tomou um curso econômico e político de radical privatização e desregulamentação.Os países ocidentais de peso, a despeito de sua retórica democrática, sempre apostaram em sombrias ditaduras nos países da periferia; para tanto, bastava que elas fossem suficientemente anticomunistas na política e suficientemente partidárias do mercado na economia. Nesse sentido, pouco espanta que o Ocidente favoreça na Europa oriental pós-socialista figuras como Ieltsin na grande Rússia ou Berisha na pequena Albânia. Há de se admirar contudo a espécie de ofuscamento ideológico com que as elites ocidentais continuam a crer que tais figuras quase irresponsáveis são capazes de administrar, com um misto de ”mão de ferro” e cura radical pelo mercado, o processo da derrocada social na enorme região que se estende do centro da Ásia ao sul europeu.Berisha, em todo caso, entre as figuras aventureiras da nova “nomenklatura” capitalista na Europa oriental, tornou-se a menina dos olhos dos conservadores britânicos e do partido governista alemão, a União Democrática Cristã (CDU).

Uma parte não desprezível das novas leis reformistas albanesas foi redigida pelos ”especialistas” alemães dos grupos de suporte técnico às sociedades devotas à ortodoxia do mercado. Em inícios de março de 1995, o presidente alemão conservador, Roman Herzog, viajou com a sua enorme comitiva para Tirana, a fim de ”fortalecer o processo de reformas albanês”. A música de acompanhamento adequada para a ocasião foi concedida por um dossiê do Deutsche Bank, com um hino ao ”programa estrutural e de estabilização” de Berisha, que ”rende cada vez mais frutos”. Eram festejados o crescimento recorde de 8% do produto interno bruto no ano de 1994, bem como os progressos na privatização e no saneamento da administração estatal. E, como o FMI e o Banco Mundial dignaram-se a contribuir para o abençoado programa de Berisha com créditos acima de US$ 180 milhões, nada parecia obstar o caminho da ventura reformista assentada na economia de mercado.Os relatos daqueles que testemunharam in loco a situação da Albânia tinham um discurso totalmente diverso. Nele se mostravam imagens de ruínas industriais decrépitas e estufas destruídas em que pastavam as ovelhas. A agricultura privatizada, dizia-se, regrediu a formas de organização muito primitivas e ao cultivo com arado de madeira. Não apenas uma grande parte da indústria de manufatura, mas também a construção de maquinário como um todo foram extintas na esteira da ”privatização”. A parcela da indústria no PIB caiu de 41% (1989) para menos de 12% (1996). Apesar disso, o crescimento oficial atingiu 8% em 1995 e subiu a 8,7% em 1996. Ainda que se levasse em conta o ponto de partida extremamente baixo depois da queda de 1990-92, o ”milagre a partir do nada” na Albânia haveria de parecer pouco digno de crédito _a não ser que se tomasse como fundamento o dossiê do Deutsche Bank, com suas grossas lentes ideológicas.Houve de fato albaneses que viveram bastante bem durante algum tempo. Mas de quê? Da produção competitiva é que não. A solução da charada foram as chamadas pirâmides financeiras _fundos de investimento criados entre 1992 e 93_, que prometiam também a pequenos investidores taxas miraculosamente altas de juros. No fundo, tratava-se de um sistema financeiro enganador, na base da bola de neve, como se pode observar mundialmente desde o início do ”capitalismo-cassino” especulativo nos anos 80. Na Albânia, praticamente toda a agricultura foi atingida por tais pirâmides levianas.Isso só foi possível porque, depois do colapso da base industrial, a atividade econômica concentrou-se principalmente nas duas frentes de contrabando controlado pela máfia: de um lado, o sul da Albânia tornou-se o elo entre a Europa oriental e ocidental para o crime organizado (drogas, armas, prostituição etc.), por meio do trânsito ilegal de lanchas sobre o Adriático; de outro, metade do norte albanês passou a viver do contrabando de combustível e outros bens para a vizinha Sérvia, sobre que pesava o embargo da ONU. As curiosas pirâmides financeiras não passavam de grandes máquinas de lavar dinheiro para essas atividades ilegais. E não há a menor dúvida de que o partido do governo do presidente Berisha estava mancomunado com a máfia e os cabecilhas das pirâmides financeiras.

Quando a ONU suspendeu o embargo contra a Sérvia, a máfia fez explodir as pirâmides. Para tanto, no outono de 1996 produziu-se novamente uma verdadeira embriaguez monetária, com a promessa de 60% de juros ao mês (!). Praticamente toda a população investiu suas economias no espaço de três meses, ofuscada pelas esperanças absurdas de ”dinheiro grosso”. Depois de dilapidar toda a população até o último centavo, as pirâmides financeiras decretaram em série a sua falência. A máfia pôde escapar sem perdas da bola de neve do sistema financeiro, ao passo que a população se viu de golpe expropriada. Em menos de uma semana, o cabalístico ”milagre econômico albanês” foi arruinado e, com ele, a reputação do dossiê do Deutsche Bank. Que analistas financeiros profissionais tenham caído neste conto-do-vigário justifica-se por um motivo bem simples: tanto a privatização na Europa oriental quanto os próprios mercados financeiros globalizados do Ocidente, há muito desvinculados da produção real, baseiam-se em última instância em estruturas bastante análogas (embora mais complexas) ao primitivo sistema ”bola de neve” das pirâmides financeiras albanesas. O que ocorreu em ponto pequeno na Albânia pode acontecer a todo momento em grande escala global.

A resposta foi o levante popular que cintilou nas telas do mundo. Câmaras Municipais, delegacias de polícia, casernas, repartições financeiras etc. foram tomadas de assalto e incendiadas, lojas e instalações públicas, saqueadas. De modo fantasmagórico, o aparato estatal dissolveu-se no ar: policiais, soldados e funcionários se recolheram ou tomaram parte nas pilhagens. Em meio à crise, a televisão e o rádio podiam emitir apenas mensagens de emergência, pois uma grande parte dos empregados não comparecera ao serviço. Enormes quantidades de armas e munições foram parar nas mãos dos manifestantes e saqueadores. Não existe mais poder na Albânia _um pesadelo de todos os dominantes desde o início da civilização humana. Entretanto não há um objetivo social alternativo. O Ocidente busca desesperadamente classificar de algum modo a situação albanesa de acordo com suas categorias habituais. A imprensa dá a entender que há talvez, segundo o modelo iugoslavo, uma ”guerra civil étnica” entre os clãs dos ”gheg” ao norte e dos ”tosk” ao sul.Ora, nem mesmo essa interpretação parece ser correta. Na verdade, o povo não sabe mais o que fazer. As pessoas não acreditam mais em nada, nem no capitalismo nem no socialismo, nem na democracia nem na etnia, nem no Estado nem na família, nem em Deus nem no mundo _e nem mesmo em si próprias. O que reina na Albânia é o completo niilismo. Em todas esquinas é possível comprar por US$ 2 ou US$ 3 uma kalachnikov com munição, mas não um pedaço de pão. Produz-se quase nada atualmente e todos, desde a criança até o idoso, estão armados até os dentes e atiram às cegas para o ar. Os apelos da União Européia caem no vazio, ainda que visem apenas a reconstruir a fachada de um ”Estado”. Na Albânia, tornou-se realidade o temor que o filósofo político Thomas Hobbes profetizou para uma sociedade de concorrência total. A enfermidade albanesa não é uma epidemia exótica; ela é o estágio terminal _que se tornou visível pela primeira vez_ da enfermidade capitalista em todo o mundo.

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