Ângelus

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Ângelus (Mario Benedetti)

Do livro “Poemas do escritório”
Tradução de Julio Luís Gehlen

Quem iria me dizer que o destino era isto.

Ver a chuva através de letras invertidas,
um paredão com manchas que simbolizam próceres,
o teto dos ônibus brilhantes como peixes
e essa melancolia que impregna as buzinas.

Aqui não há céu,
aqui não há horizonte.

Há uma mesa grande para todos os braços
e uma cadeira que gira quando quero escapar.
Mais um dia se acaba e o destino era só isso.

É estranho que a gente tenha tempo de se ver triste:
sempre toca uma ordem, um telefone, uma campainha,
e, claro, é proibido chorar sobre os livros
porque não fica bem que a tinta se borre.

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