A Mário de Andrade ausente

Print Friendly, PDF & Email

A Mário de Andrade ausente (Manuel Bandeira)

Anunciaram que você morreu.
Meus olhos, meus ouvidos testemunham:
A alma profunda, não.
Por isso não sinto agora a sua falta.
Sei bem que ela virá
(Pela fôrça persuasiva do tempo).
Virá súbito um dia,
Inadvertida para os demais
Por exemplo assim:
À mesa conversarão de uma coisa e outra
Uma palavra lançada à toa
Baterá na franja dos lutos de sangue.
Alguem perguntará em que estou pensando,
Sorrirei sem dizer que em você
Profundamente.

Mas agora não sinto a sua falta.
(É sempre assim quando o ausente
Partiu sem se despedir:
Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.
Direi: Faz tempo que êle não escreve.
Irei a São Paulo: você não virá no meu hotel.
Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua vida continua
Na vida que você viveu.
Por isso não sinto agora sua falta.

Publicações relacionadas

Poetas Poetas (Florbela Espanca) Ai as almas dos poetas Não as entende ninguém; Sã...
Quando a Erva Crescer Quando a Erva Crescer (Alberto Caeiro) Quando a erva crescer em cima da minh...
En la lucha de clases En la lucha de clases (Paulo Leminski) en la lucha de clases todas las ar...
No meu Prato No meu Prato (Alberto Caeiro) De O ...

Deixe uma resposta