O cavalo baloiço vencedor

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O cavalo baloiço vencedor (David Hebert Lawrence)

Havia uma mulher que era formosa, que principiara a vida com todas as possibilidades de êxito, e contudo não era feliz. Casara por amor, e o amor convertera-se em pó. Tivera filhos sadios, e contudo sentia que eles lhe tinham sido impostos, e que não os podia amar. Olhavam-na friamente, como se lhe pusessem todas as culpas. E de súbito ela sentia a necessidade de encobrir qualquer falta. Mas nunca soube o que é que tinha a encobrir. Não obstante, na presença dos filhos, sentia sempre gelar-se-lhe o âmago do coração. Isto perturbava-a, e as suas maneiras tornavam-se então mais amáveis e solícitas para as crianças como se lhes quisesse muito. Só ela sabia que no fundo do seu coração havia um escaninho gelado que não podia sentir amor, não, fosse por quem fosse. As outras pessoas diziam dela: «É uma bela mãe. Adora os filhos». Apenas ela, e também os filhos, sabiam que não era assim. Liam-no nos olhos uns dos outros.
Tinha um rapaz e duas meninas. Viviam numa casa com jardim, tinham criados discretos e sentiam-se superiores a todas as pessoas da vizinhança.
Muito embora vivessem com distinção, havia sempre uma ansiedade em casa. O dinheiro nunca chegava. A mãe tinha um pequeno rendimento, e o pai também, mas nem de longe chegava para a posição social que tinham de manter. O pai desempenhava na cidade um emprego qualquer. Mas embora tivesse boas perspectivas, essas perspectivas nunca se materializavam. Havia ali a sensação permanente da falta de dinheiro, muito embora se mantivesse sempre o mesmo teor de vida.
Até que por fim a mãe disse: «Tenho de ver se arranjo qualquer coisa». Mas não sabia por onde começar. Frigia os miolos, experimentava ora uma coisa ora outra, mas não havia forma de encontrar nada que desse resultado. O fracasso cavou-lhe fundas rugas no rosto. Os filhos iam crescendo, e tinham de ir para a escola. Era necessário mais dinheiro, era necessário mais dinheiro. O pai, sempre muito elegante e com gostos dispendiosos, parecia que nunca viria a ser capaz de fazer qualquer coisa que se visse. E a mãe, que tinha grande confiança em si, também não era mais bem sucedida; além do que os seus gostos eram tão dispendiosos como os dele.
Desta forma a casa veio a ser perseguida pela frase tácita: É necessário mais dinheiro! É necessário mais dinheiro! As crianças ouviam-na a todo o momento, muito embora ninguém a dissesse em voz alta. Ouviam-na pelo Natal, quando o seu quarto se encontrava cheio de brinquedos dispendiosos e esplêndidos. Por detrás do reluzente cavalo de baloiço moderno, por detrás da primorosa casa das bonecas, uma voz começava a murmurar: «É necessário mais dinheiro! É necessário mais dinheiro»! E as crianças paravam então de brincar, para escutarem por um momento. Fitavam os olhos umas nas outras para ver se todas tinham ouvido. E cada uma via nos olhos das outras duas que também elas tinham ouvido: «É necessário mais dinheiro! É necessário mais dinheiro»!
A voz vinha murmurando desde as molas do cavalo de baloiço, que ainda oscilava; e o próprio cavalo, inclinando a cabeça de madeira, mordendo o freio, a ouvia. A boneca grande, sentada tão rósea e sorridente no seu novo carrinho de criança, ouvia-a distintamente, e parecia sorrir por esse motivo, com mais consciência de si. E o cachorrinho brincalhão, que ocupava o lugar do urso desajeitado, esse tinha um aspecto tão extraordinariamente turbulento pela simples razão de que também ouvira por toda a casa o secreto murmúrio: «É necessário mais dinheiro»!
Contudo ninguém o disse nunca em voz alta. O murmúrio soava por toda a parte, e, por conseguinte, ninguém o dizia, precisamente como nunca ninguém diz: «Estamos a respirar»! apesar de que a respiração entra e sai a todo o momento.
– Mamã – disse Paulo um dia – porque não temos um carro nosso? Porque é que nos servimos sempre do do tio, ou então alugamos um taxi?
– Porque somos os membros mais pobres da família.
– Mas porque é que somos assim, mamã?
– Bem, suponho – disse ela vagarosamente e com amargura – que é porque o teu papá não tem sorte.
O rapaz ficou silencioso durante algum tempo.
– A sorte é ter dinheiro, mamã? – perguntou um tanto a medo.
– Não, Paulo. Não é bem a mesma coisa. É o que faz com que se tenha dinheiro. Se temos sorte, temos dinheiro. É por isso que vale mais nascer com sorte do que rico. Se formos ricos, podemos perder o nosso dinheiro. Mas se tivermos sorte, conseguimos cada vez mais dinheiro.
– Oh! É assim? E o pai não tem sorte?
– Tem muito pouca sorte, é o que é – disse ela amargamente.
O rapaz fitou-a com olhos mal seguros.
– Porquê?
– Não sei. Nunca ninguém sabe porque é que uma pessoa tem sorte e outra não.
– Não sabe? Ninguém sabe? Mesmo ninguém?
– Talvez Deus. Mas esse não no-lo diz.
– Devia dizer-nos então. E a mãe também não é feliz?
– Como posso sê-lo se casei com um marido infeliz?
– Mas independentemente do pai, não o é?
– Pensava que o era, antes de casar. Agora penso que sou muito infeliz, na verdade.
– Porquê?
– Bem – não faz mal! Talvez que o não seja realmente – disse ela.
A criança olhou-a, para ver se dizia a verdade. Mas viu, pelas rugas da sua boca, que a mãe apenas tentava ocultar-lhe qualquer coisa.
– Bem, seja como for – disse ele corajosamente – eu sou uma pessoa feliz.
– Porquê? – disse a mãe com um riso súbito.
A criança fitou-a. Não sabia sequer porque o tinha dito.
– Deus disse-mo – asseverou descaradamente.
– Oxalá que sim, querido! – disse a mãe, rindo novamente, mas em tom um tanto amargo.
– Disse, sim, mamã!
– Óptimo! – disse a mãe, empregando uma das exclamações do marido.
O rapaz viu que ela o não acreditava; ou, antes, que não prestava atenção à sua afirmativa. Isto causou-lhe certa zanga, e levou-o a querer forçar a atenção da mãe.
Prosseguiu sozinho, vagamente, de uma forma infantil, a procurar a chave da «felicidade». Absorto, não se preocupando com as outras pessoas, prosseguiu intimamente, e com certa reserva, na procura da felicidade. Queria a felicidade, queria-a, queria-a. Quando as irmãs brincavam com as bonecas, nos aposentos reservados às crianças, ele montava o seu grande cavalo de baloiço, carregando loucamente sobre o espaço, com um frenesi que fazia com que as duas meninas o espiassem com certo mal-estar. O cavalo prosseguia numa carreira desenfreada, o cabelo negro às ondas do rapaz ficava em desalinho e os seus olhos assumiam um brilho estranho. As meninas não ousavam falar-lhe.
Uma vez chegado ao termo da sua jornadazinha louca, apeava-se e ficava de pé em frente do cavalo de baloiço, olhando fixamente o focinho inclinado para o chão. Tinha a boca vermelha levemente aberta e nos grandes olhos havia um brilho vítreo.
– Agora! – ordenava silenciosamente ao corcel, que resfolgava.
– Agora leva-me para onde está a felicidade! Leva-me já!
E fustigava o pescoço do cavalo com o pequeno chicote que pedira ao tio Oscar. Sabia que o cavalo o poderia levar para onde havia a felicidade, desde que o forçasse a isso. De forma, que voltava a montar, e partia em furiosa corrida, esperando por fim alcançá-la, pois sabia poder alcançá-la.
– Assim dá cabo do cavalo, Paulo! – dizia a criada.
– Está sempre a andar assim com o cavalo! Tomara eu que ele se fosse embora! – dizia Joana, a irmãzinha mais velha.
Mas o rapaz limitava-se a olhá-las em silêncio. A criada desistia por saber que não podia fazer nada com ele. Pois se já a ia ultrapassando em altura!
Um dia a mãe e o tio Oscar entraram quando ele se encontrava numa das suas furiosas corridas. Nem lhes falou.
– Olá, seu jovem jockey! Montas um cavalo vencedor de corridas! – disse o tio.
– Já não vais ficando grande de mais para um cavalo de baloiço? Bem sabes que já não és um menino pequenino – disse a mãe.
Mas Paulo somente lhes lançou uma centelha azul dos seus grandes olhos, ligeiramente cerrados. Não falava a ninguém quando se encontrava em plena corrida. A mãe observava-o inquieta.
Por fim, parou subitamente, detendo o galope mecânico do cavalo, e apeou-se.
– Bem, já cheguei lá – anunciou em tom sacudido, os olhos azuis ainda faiscando e as longas pernas robustas arqueadas.
– Aonde chegaste tu? – perguntou a mãe.
– Aonde queria ir – volveu-lhe entusiasmado.
– Está muito bem, filho! – disse o tio Oscar. Não pares até que chegues lá. Como se chama o cavalo?
– Não tem nome – disse o rapaz.
– Passa bem sem ele? – perguntou o tio.
– Bem, ele tem diferentes nomes. A semana passada chamava-se Sansovino.
– Com que então, Sansovino? Ganhou a corrida de Ascot. Como soubeste o nome?
– Está sempre a falar de corridas de cavalos com Bassett – disse Joana.
O tio ficou radiante por ver que o sobrinhito se encontrava em dia com todas as novidades das corridas. Bassett, o jovem jardineiro, que fora ferido no pé esquerdo durante a guerra e conseguiria o emprego actual por intermédio de Oscar Cresswell, de quem fora impedido, era um perfeito jardineiro. Andava sempre ao par do que se passava nas corridas, e o rapazinho sabia-o através dele.
Oscar Cresswell foi informado por Bassett de tudo o que se passava.
– O menino Paulo vem fazer-me perguntas, de forma que não tenho outro remédio se não dizer-lhe – informou Bassett, com expressão terrivelmente séria, como se estivesse falando de assuntos religiosos.
– E aposta alguma coisa em qualquer cavalo que lhe palpite?
– Bem – não quero divulgar um segredo – é um menino com sorte; com muita sorte, senhor Cresswell. Não se importava de fazer essa pergunta a ele mesmo? Parece que tem prazer nisso, e era capaz de não gostar que eu estivesse a contar o segredo. Se o senhor não se importasse…
Bassett tinha o ar solene de uma Igreja.
O tio foi ter com o sobrinho, e levou-o a dar um passeio no seu automóvel.
– Ouve lá, Paulo, meu homem – tu costumas apostar em cavalos? – perguntou o tio.
O rapaz fitou atentamente o simpático homem.
– Porquê? Julga que não devia fazê-lo? – disse, parando o golpe.
– Nem por sombras! Pensei que talvez me pudesses dar uma informação para a corrida de Lincoln.
O carro continuava a sua carreira através dos campos, descendo para a residência do tio Oscar, em Hampshire.
– Palavra de honra? – disse o sobrinho.
– Palavra de honra, filho!
– Bem, então, Narciso.
– Narciso!? Duvido disso, filhinho. Que tal achas Mirza?
– Só conheço o vencedor – disse o rapaz. – É Narciso.
– Narciso, heim?
Houve uma pausa. Narciso era um cavalo relativamente obscuro.
– Tio!
– Dize lá, filho.
– Não vai divulgar isso, pois não? Prometi a Bassett…
– Ao diabo com Bassett, meu velho! O que tem ele que ver com o caso?
– Somos sócios. Temos sido sempre sócios desde o princípio. Tio, foi ele que me emprestou os meus primeiros cinco xelins, que eu perdi. Prometi-lhe, sob palavra de honra, que era só entre nós os dois. No entanto, o tio deu-me aquela nota de dez xelins com que eu comecei a ganhar; de maneira que me pareceu que dava sorte. Não vai dizê-lo a mais ninguém, pois não?
O rapaz fitou o tio com aqueles seus grandes olhos, quentes e azuis, um tanto estrábicos, e o tio soltou uma risada em que havia um certo mal-estar.
– Tens razão, filho! Guardarei para mim o teu segredo. Narciso, heim? Quanto apostas sobre ele?
– Tudo, excepto vinte libras. Guardo-as de reserva.
O tio achou-lhe muita graça.
– Guardas vinte libras de reserva, não é assim, meu jovem sonhador? Quanto apostas então?
– Aposto trezentas libras – disse o rapaz com gravidade. – Mas fica entre nós dois, tio Oscar! Palavra de honra?
O tio riu às gargalhadas.
– Está bem; fica entre nós dois – disse, rindo ainda. – Mas onde estão as tuas trezentas libras?
– Bassett tem-nas guardadas. Somos sócios.
– Basta que sim! E quanto aposta Bassett em Narciso?
– Suponho que não irá tão longe como eu. Talvez vá até cento e cinquenta.
– O quê? Dinheiros? – disse o tio rindo.
– Libras – volveu a criança, com um olhar de surpresa para o tio. – Bassett guarda uma reserva maior do que a minha.
Entre espantado e divertido, o tio Oscar ficou silencioso. Não foi mais longe no assunto, mas resolveu levar o sobrinho às corridas de Lincoln.
– Agora, filho – disse ele – aposto vinte libras em Mirza, e dou-te cinco para apostares no cavalo que quiseres. Qual é o teu palpite?
– Narciso, tio.
– Não, não aposto cinco libras em Narciso!
– Eu apostava, se o dinheiro fosse meu – disse a criança.
– Bem! Bem! Tens razão! Cinco libras para mim e para ti sobre Narciso.
A criança nunca tinha estado numa corrida de cavalos, e os seus olhos chispavam fogo azul. Apertava os lábios, e observava. Um francês que se encontrava mesmo na sua frente, tinha apostado o seu dinheiro em Lancelot. Cheio de excitação, agitava os braços para cima e para baixo, gritando: «Lancelot! Lancelot!» no seu sotaque francês.
Narciso ficou em primeiro lugar, Lancelot em segundo e Mirza em terceiro. A criança, afogueada e com os olhos brilhantes, estava curiosamente serena. O tio trouxe-lhe quatro notas de cinco libras, quatro por uma.
– O que devo fazer com elas? – perguntou, agitando-as diante dos olhos do rapaz.
– Creio que devemos falar a Bassett – disse este. – Devo ter agora mil e quinhentas, mais vinte de reserva, e estas vinte.
O tio estudou-o durante alguns momentos.
– Ouve lá, filho! Não falas verdade a respeito de Bassett e dessas mil e quinhentas libras, pois não?
– Falo, sim. Mas fique entre nós dois, tio. Palavra de honra?
– Pois palavra de honra, filho! Mas tenho de falar a Bassett.
– Se o tio quisesse ser nosso sócio, de Bassett e de mim, podíamos ser todos sócios. Somente, tinha de prometer sob a sua palavra, tio, que a coisa não iria além de nós três. Eu e Basset temos sorte, e o tio também deve tê-la, porque foi com os seus dez xelins que comecei a ganhar…
O tio Oscar levou, uma tarde, Bassett e Paulo a Richmond Park, e ali conversaram.
– É como o senhor vê – disse Bassett. – O menino Paulo queria ouvir-me falar sobre o que se passava nas corridas, histórias palpitantes, como vê, meu senhor. E interessava-se sempre muito em saber se eu tinha ganho ou perdido. Faz agora perto de um ano que apostei cinco xelins por ele sobre Blush of Dawn – e perdemos. Depois a sorte mudou, com aqueles dez xelins que o senhor lhe deu, e apostámos em Singhalese. E desde essa data temos tido sempre sorte, de uma maneira geral. Não acha, menino Paulo?
– Ganhamos quando temos a certeza – disse Paulo. – É só quando não temos bem a certeza, que nos vamos abaixo.
– Oh, mas então temos cautela – disse Bassett.
– E quando é que vocês têm a certeza? – disse o tio Oscar, sorrindo.
– É o menino Paulo, senhor – disse Bassett numa voz de segredo, numa voz religiosa. – É como se Deus lho dissesse. Como aconteceu agora, com Narciso, para a corrida de Lincoln. Foi tão certo como dois e dois serem quatro.
– Apostaste alguma coisa em Narciso? – perguntou Oscar Cresswell.
– Sim, senhor. Ganhei o meu bocado.
– E meu sobrinho?
Bassett mantinha-se obstinadamente calado, olhando Paulo.
– Ganhei mil e duzentas libras, não foi, Bassett? Disse ao tio que apostava trezentas em Narciso.
– É verdade – disse Bassett, acenando com a cabeça.
– Mas onde está o dinheiro? – perguntou o tio.
– Guardo-o em lugar seguro, meu senhor. O menino Paulo pode recebê-lo a todo o tempo que o peça.
– O quê? Mil e quinhentas libras?
– Com mais vinte! Quer dizer, e mais quarenta, com as vinte que ganhou na corrida.
– É espantoso! – disse o tio.
– Se o menino Paulo lhe propusesse para ser sócio, meu senhor, eu aceitava se estivesse no seu lugar. Queira desculpar… – disse Bassett.
Oscar Cresswell pensou um bocado.
– Mostra-me o dinheiro.
Voltaram no carro para casa, e, não havia dúvidas; Bassett trouxe para a casota do jardim mil e quinhentas libras em notas. A reserva de vinte libras estava depositada na Caixa.
– Como o tio vê, dá resultado quando eu tenho a certeza! Então apostamos tudo o que temos. Não é assim, Bassett?
– É assim mesmo, menino Paulo.
– E quando tens tu a certeza? – perguntou o tio, rindo.
– Bem: algumas vezes tenho a absoluta certeza, como aconteceu com Narciso: – outras vezes, tenho um palpite: e outras nem um palpite tenho. Não é assim, Bassett? Então temos mais cuidado, porque a maior parte das vezes vamos abaixo.
– Basta que sim! E quando tens a certeza, como com Narciso, o que é que te faz ter a certeza, filho?
– Oh, isso não sei – disse o rapaz, inquieto – Tenho a certeza, sabe?, tio. É assim mesmo.
– É como se Deus lho dissesse, meu senhor – reiterou Bassett.
– Dir-se-ia que sim! – disse o tio.
Mas ficou sócio. E quando se aproximava a corrida de Leger, a «certeza» de Paulo recaiu em Lively Spark, que era um cavalo absolutamente insignificante. O rapaz insistiu em apostar mil libras no cavalo, Bassett foi até quinhentas, e Oscar Cresswell duzentas. Lively Spark ficou em primeiro lugar, e a aposta tinha sido de dez para um contra ele. Paulo ganhara dez mil libras.
– Como vê, eu tinha a absoluta certeza a respeito dele – disse para o tio.
O próprio Oscar Cresswell ganhara duas mil libras.
– Ouve lá, filho – disse ele – esta coisa faz-me nervos.
– Não vejo porquê, tio! Talvez que não volte a ter a certeza durante muito tempo.
– Mas que vais tu fazer com o teu dinheiro? – perguntou o tio.
– Claro que principiei isto para a mamã. Disse-me que não tinha sorte porque o pai é infeliz, de maneira que pensei que se eu tivesse sorte, acabariam as murmurações.
– O que é que deixaria de murmurar?
– A nossa casa. Detesto a nossa casa por causa das murmurações.
– O que é que a tua casa murmura?
– Ora… ora – disse o rapaz em tom impaciente – ora, não sei. Mas há sempre falta de dinheiro sabe, tio?
– Bem sei, bem sei, filho.
– Sabe que estão sempre a mandar contas à mãe, não sabe, tio?
– Creio que sim.
– E depois a casa murmura, como as pessoas que se riem nas costas doutras. É terrível! Pensei que se tivesse sorte…
– Podias acabar com isso – acrescentou o tio.
O rapaz observou-o com os seus grandes olhos azuis, que tinham uma chama fria e misteriosa, e não disse mais palavras.
– Bem – disse o tio. – Então o que vamos fazer?
– Não gostaria que a mãe soubesse que tinha sorte – disse o rapaz.
– Porque não, filho?
– Poderia dar-me azar.
– Creio que não daria.
– Oh! – e o rapaz teve uma contracção estranha – não quero que ela o saiba, tio.
– Está bem, filho! Arranjaremos as coisas sem ela saber.
Conseguiram-no muito facilmente. Por sugestão do tio, Paulo entregou-lhe mais de cinco mil libras, que ele depositou nas mãos do advogado da família, com o encargo de informar a mãe de Paulo de que um parente lhe entregara aquele dinheiro, com o fim de lhe fazer chegar às mãos mil libras de cada vez, no dia do aniversário da mãe, durante os cinco anos seguintes.
– Desta forma ela terá um presente de anos de mil libras, durante cinco anos sucessivos – disse o tio Oscar. – Oxalá que isso não lhe torne a vida dura depois.
A mãe de Paulo fez anos em Novembro. A casa tinha estado a «murmurar» mais do que nunca ultimamente e, apesar da sua sorte, Paulo não o podia tolerar. Estava ansioso por ver o efeito da carta de aniversário, informando a mãe do presente de mil libras.
Quando não havia visitas, Paulo tomava agora as suas refeições com os pais, por já ter idade para isso. A mãe ia à cidade quase todos os dias. Descobrira que possuía uma habilidade especial para desenhar artigos de peles e vestuário, de forma que trabalhava secretamente no escritório de uma amiga que era a «artista» mais conceituada junto dos costureiros principais. Desenhava as figuras das senhoras vestidas de peles, de sedas e lantejoulas, para os anúncios dos jornais. Esta jovem artista ganhava alguns milhares de libras por ano, mas a mãe de Paulo só tirava uns centos, e continuava insatisfeita. Desejava tanto ser a primeira em qualquer coisa, e não o conseguia, nem mesmo fazendo esboços para os anúncios dos costureiros.
Na manhã do seu aniversário, desceu para tomar o pequeno almoço. Paulo observava-lhe a expressão, enquanto ela lia as suas cartas. Conhecia a carta do advogado. Quando a mãe a leu, a face endureceu-se-lhe e tornou-se mais inexpressiva. Depois a boca assumiu uma expressão fria, decidida. Escondeu a carta debaixo do maço das outras, e não disse uma palavra a respeito dela.
– Não recebeu uma boa prenda pelo correio, pelos seus anos, mamã? – disse Paulo.
– Assim, assim – disse ela, com voz fria e ausente.
E partiu para a cidade sem dizer mais palavra.
Mas à tarde apareceu o tio Oscar. Disse que a mãe de Paulo tinha tido uma longa entrevista com o advogado, perguntando-lhe se não lhe poderiam ser adiantadas imediatamente todas as cinco mil libras, visto ter dívidas.
– O que acha, tio? – disse o rapaz.
– Isso é contigo, filho.
– Oh, então que as receba! Podemos receber mais alguma para a próxima vez.
– Olha que é melhor um pássaro na mão do que dois a voar, rapaz – disse o tio Oscar.
– Mas tenho a certeza que hei-de saber quem ganha a Grande Corrida Nacional; ou a de Lincolnshire; ou então a de Derby. Tenho a certeza que hei-de saber uma delas – disse Paulo.
De sorte que o tio Oscar assinou o acordo, e a mãe de Paulo recebeu todas as cinco mil libras. Então aconteceu qualquer coisa de muito curioso. Em casa as vozes ficaram subitamente furiosas, como um coro de rãs em tarde de Primavera. Houve certos fornecimentos novos, e Paulo teve um professor. Ia, com efeito, para Eton, a escola de seu pai, no Outono seguinte. Houve flores no Inverno, e uma revivescência do luxo a que a mãe de Paulo estivera habituada. E contudo em casa, por detrás dos molhos de flores de mimosa e amendoeira, e debaixo das pilhas de almofadas iridescentes, as vozes garganteavam e exclamavam, numa espécie de êxtase: «É preciso mais dinheiro! Oh! é preciso mais dinheiro. Oh, agora, agora! Agora… é preciso mais dinheiro! – mais do que nunca! Mais do que nunca»!
Isto atormentou Paulo terrivelmente. Enfronhou-se no seu latim e no seu grego com os professores. Mas as suas horas de emoção, passava-as com Bassett. A Grande Corrida Nacional passara, e ele não tivera a revelação e perdera cem libras. O Verão aproximava-se. Paulo vivia em aflição por causa da corrida de Lincoln. Mas também para esta não recebeu revelação e perdeu cinquenta libras. Andava esgazeado e alheio a tudo, como se qualquer coisa fosse explodir dentro dele.
– Deixa andar, filho! Não te importes com isso! – insistia o tio Oscar. Mas era como se o rapaz não ouvisse o que lhe dizia o tio.
– Tenho que «saber» para o Derby! Tenho que «saber» para o Derby – insistia a criança, com os seus grandes olhos azuis ardendo numa espécie de loucura.
A mãe notou quão sucumbido se encontrava.
– Devias ir para a praia. Não gostarias de ir agora para a praia, em vez de esperar? Acho que seria melhor – dizia ela olhando-o com ansiedade, o coração apreensivo por causa dele.
Mas a criança erguia para ela os seus misteriosos olhos azuis.
– Não posso ir antes do Derby, mamã! Não posso ir!
– Porque não? – disse ela, e a voz tornava-se-lhe grave quando lhe faziam oposição. – Porque não? Podes ir da praia ver o Derby com teu tio Oscar, se é esse o teu desejo. Não tens necessidade de esperar aqui. Além disso, parece-me que tomas demasiado a peito essas corridas. É mau sinal. A minha família tem sido uma família de jogadores, e só quando fores crescido saberás quanto mal isso lhe tem feito. Mas tem-lhe feito mal. Tenho de mandar Bassett embora e pedir ao tio Oscar que não te fale em corridas, se não me prometeres ter juízo. Vai para a praia e põe isso de parte. És todo nervos!
– Farei o que quiseres, mamã, desde que não me mandes embora antes do Derby.
– Mandar-te embora donde? Desta casa?
– Sim – disse ele, mirando-a.
– Mas então, ó curiosa criança, o que é que te faz importar tanto com esta casa, assim subitamente? Não sabia que gostavas tanto dela.
Paulo fitou a mãe sem dizer palavra. Tinha um segredo dentro doutro segredo, qualquer coisa que não divulgara, nem mesmo a Bassett ou ao seu tio Oscar.
Mas a mãe, depois de alguns momentos de amarga hesitação, disse:
– Então está muito bem! Não vais para a praia senão depois do Derby, se isso te agrada. Mas promete-me que não vais dar cabo dos nervos. Promete que vais pensar menos em corridas de cavalos e nos acontecimentos, como tu lhes chamas!
– Oh, não – disse o rapaz distraídamente. – Vou pensar menos neles, mamã. Não se preocupe. Por mim, não me preocuparia, se fosse a mamã.
– Se tu estivesses no meu lugar e eu no teu – disse a mãe – o que não faríamos nós!
– Mas a mãe sabe que não vale a pena ralar-se, não sabe? – repetiu o rapaz.
– Seria uma grande satisfação para mim sabê-lo – disse ela em tom cansado.
– Oh, pode sabê-lo, sim. Quero dizer, devia saber que não vale a pena ralar-se – insistiu Paulo.
– Devia? Então verei se o consigo.
O segredo dos segredos de Paulo era o seu cavalo de madeira, o cavalo que não tinha nome. Desde que se encontrava emancipado da criada de meninos e da preceptora, fizera remover o cavalo de baloiço para o seu quarto de cama, no último andar da casa.
– Evidentemente, já és grande de mais para um cavalo de baloiço – objectara a mãe.
– Deixe lá, mamã. Até que eu possa ter um cavalo verdadeiro, – gosto de ter aqui qualquer espécie de animal – fora a sua estranha resposta.
– Achas que te faz companhia? – disse a mãe rindo.
– Com certeza! É muito bom e faz-me sempre companhia, quando lá estou.
Desta forma o cavalo, que se encontrava já um tanto velho, ficou no quarto de cama do rapaz, detidas as suas cabriolas.
À medida que o Derby se aproximava, o rapaz ia ficando cada vez mais nervoso. Mal prestava ouvidos ao que se lhe dizia, estava muito magro, e os seus olhos tinham um brilho verdadeiramente misterioso. A mãe tinha apreensões súbitas e estranhas a seu respeito. Por vezes, sentia durante meia hora uma súbita ansiedade, ansiedade que era quase angústia. Queria correr para ele imediatamente, para ter a certeza de que estava com vida e saúde.
Duas noites antes do Derby, encontrava-se ela numa grande reunião que se realizava na cidade, quando lhe assaltou o coração uma dessas crises de ansiedade por causa do filho, do seu primogénito, fazendo-a quase perder a fala. Lutou vigorosamente contra esse sentimento, pois acreditava no senso comum. Mas ele foi mais forte do que ela. Teve de deixar o baile e descer ao local onde se encontrava o telefone, para falar para casa. A preceptora das crianças ficou terrivelmente surpreendida e alarmada, ao ouvir o telefone tocar àquela hora da noite.
– As crianças estão bem, miss Wilmot?
– Estão sim, perfeitamente bem.
– E o Paulo está bem?
– Foi deitar-se são como um pêro. Quer que vá lá acima vê-lo?
– Não – disse a mãe de Paulo com relutância. – Não! Não se incomode. Está muito bem. Não se levante. Devemos estar em casa dentro de pouco tempo. Não queria que ninguém devassasse a vida íntima do filho.
– Muito bem – disse a preceptora.
Era cerca de uma hora quando o pai e a mãe de Paulo se dirigiram para casa. Tudo se encontrava em silêncio. A mãe dirigiu-se para o seu quarto e despiu o casaco branco de peles. Tinha dito à criada para não a esperar. Ouviu o marido no andar de baixo, preparando um whisky com soda.
E então, impelida pela estranha ansiedade que tinha no coração, subiu furtivamente as escadas, em direcção ao quarto do filho. Sem fazer barulho, dirigiu-se ao longo do corredor do andar superior. Havia lá dentro um ligeiro ruído. O que seria?
Deteve-se, com músculos contraídos, do lado de fora da porta, escutando. Vinha de lá um ruído estranho, pesado e, contudo, não muito alto. O coração parou-lhe. Era um ruído abafado, mas insistente e poderoso. Qualquer coisa de grandes dimensões, em movimento violento, mas abafado. O que seria? O que seria, Santo Deus? Tinha de o saber. Parecia-lhe conhecer o ruído. Sabia o que era.
Contudo, não era capaz de o localizar. Não era capaz de dizer o que era. E o ruído continuava, como uma loucura.
Devagarinho, gelada de ansiedade e medo, a mãe deu volta ao puxador da porta.
O quarto encontrava-se às escuras, mas no espaço próximo da janela, ouviu e viu qualquer coisa que oscilava para um lado e para o outro. Firmou os olhos, cheia de medo e espanto.
Depois, subitamente, acendeu a luz, e viu o filho, vestido no seu pijama verde, cavalgando loucamente o cavalo de baloiço. A claridade da luz iluminou-o subitamente, quando incitava o cavalo de madeira, e iluminou-a, erguendo-se, loura, no seu vestido de pálido verde e cristal, à entrada da porta.
– Paulo! – exclamou. – O, que estarás tu a fazer?
– É Malabar! – gritou, numa voz forte e estranha. – É Malabar!
Os seus olhos brilharam na direcção da mãe durante um segundo estranho e vazio, depois que deixou de incitar o cavalo de madeira. Seguidamente, caiu ao chão com um baque, e ela, impelida por todo o seu atormentado amor de mãe, precipitou-se para o apanhar.
Mas Paulo estava inconsciente, e inconsciente ficou, com uma ponta de febre. Falava e agitava-se, enquanto a mãe permanecia rígida a seu lado.
– Malabar! É Malabar! Bassett, Bassett, eu sei! É Malabar!
Assim gritava a criança, tentando erguer-se e incitar o cavalo de baloiço que lhe dera a sua inspiração.
– O que é que quer dizer Malabar? – perguntou a mãe compungida.
– Não sei – disse o pai secamente.
– O que é que quer dizer Malabar? – perguntou ela a seu irmão Oscar.
– É um dos cavalos que tomam parte na corrida de Derby.
E, mau grado seu, Oscar Cresswell falou a Bassett e apostou mil libras em Malabar: a catorze contra um.
O terceiro dia da doença foi um dia crítico: estavam à espera de uma mudança. Com o cabelo longo encaracolado, o rapaz agitava-se incessantemente no travesseiro. Não dormia nem recuperava a consciência, e os seus olhos eram como duas pedras azuis. A mãe velava, sentindo ter perdido a coragem, transformada numa verdadeira estátua de pedra.
À noite, Oscar Cresswell não apareceu, mas Bassett mandou à senhora um recado em que lhe pedia para ver Paulo, nem que fosse por um só instante. A mãe de Paulo ficou irritada com a intromissão, mas, pensando melhor, concordou. O rapaz continuava na mesma. Talvez que Bassett lhe pudesse fazer recuperar a consciência.
O jardineiro, homem baixo, com um bigodinho castanho e uns olhitos castanhos muito vivos, entrou no quarto nas pontas dos pés, saudou a mãe de Paulo levando a mão ao seu boné imaginário, e dirigiu-se para a beira da cama, olhando com os olhos pequeninos e brilhantes a criança que se agitava, moribunda.
– Menino Paulo – Ciciou. – Menino Paulo! Malabar ficou em primeiro lugar, uma vitória limpa. Fiz como me disse. Ganhou para cima de setenta mil libras, ganhou. Tem agora mais de oitenta mil. Malabar ficou à frente de todos, menino Paulo.
– Malabar! Malabar! Não disse que era Malabar, mamã? Não disse que era Malabar? Não acha que tenho sorte, mamã? Eu sabia que era Malabar, não era? Mais de oitenta mil libras! Chama-se ter sorte, não é, mamã? Mais de oitenta mil libras! Eu sabia; não sabia que sabia? Malabar ficou à frente de todos. Se eu cavalgar o meu cavalo até ter a certeza, então digo-te, Bassett, que podes ir tão longe quanto quiseres. Apostaste todo o dinheiro que tinhas, Bassett?
– Apostei mil libras, menino Paulo.
– Nunca te disse, mamã, que se cavalgar o meu cavalo, e chegar lá, então tenho a certeza absoluta – oh, absoluta! Mamã, disse-te alguma vez? Eu tenho sorte!
– Não, nunca me disseste – disse a mãe.
Mas o rapaz morreu aquela noite.
E quando ele jazia morto, a mãe ouvia a voz de seu irmão que lhe dizia: – Meu Deus, Ester! tens oitenta mil libras a mais e um pobre filho a menos. Mas – pobre criança! pobre criança! – mais lhe valeu perder a vida, a ele que tinha de cavalgar o seu cavalo de baloiço para descobrir qual era o vencedor.

FIM

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