Bandônion

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Bandônion (Mario Benedetti)

Do livro “Inventário”
Tradução de Julio Luís Gehlen

Me custa confessá-lo
mas a vida é também um bandônion
há quem sustente que quem toca é deus
mas eu estou certo de que é troilo*
já que deus apenas toca harpa
e mal

seja quem for o certo é
que nos espicha num único gesto puríssimo
e logo nos reduz aos poucos a quase nada
e claro nos arranca confissões
queixas que são clamores
vértebras de alegria
esperanças que voltam
como os filhos pródigos
e sobretudo como os estribilhos

me custa confessá-lo
porque o certo é que hoje em dia
poucos
querem ser tango
a natural tendência
é ser mambo ou rumba ou chachachá
ou merengue ou bolero ou talvez cassino
em último caso valsinha ou milonga
passodoble jamais
mas quando deus ou pichuco* ou quem for
toma entre suas mãos a vida bandônion
e lhe sugere que chore ou regozije
a gente sente o tremendo decoro de ser tango
e se deixa cantar e nem se lembra
que lá espera
o estojo

*Aníbal TroiIo, conhecido também como Pichuco, famoso bandoneooista. mestre de Astor Pianola (IV. do T.)

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