Charles Baudelaire por Gilberto Mendonça Teles

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Charles Baudelaire por Gilberto Mendonça Teles (Charles Pierre Baudelaire)

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867), cujos primeiros trabalhos passaram despercebidos, já havia escrito aos vinte anos alguns dos poemas que comporiam o seu livro mais famoso, Les fleurs du mal, publicado em 1857, depois de quinze anos de paciente elaboração. Aos vinte e seis anos, Baudelaire leu um conto de Poe, iniciando a sua admiração pelo poeta norte-americano, cuja obra em prosa traduziu e publicou, ao longo de quase dezessete anos. O contato com as idéias poéticas de Poe, para quem a beleza era o resultado do entendimento e do cálculo, foi de essencial importância para o desenvolvimento de sua concepção de que a poesia tinha muito a ver com a lógica e a matemática. Só aos trinta e seis anos, Baudelaire sentiu que deveria reunir seus poemas em livro, optando pelo título de Les fleurs du mal, em vez do Limbes que ocupou por algum tempo a sua atenção. Uma crítica saída em Le Figaro atraiu os olhos da censura, levando a justiça a condenar o livro por ultraje à moral pública e aos bons costumes, além de exigir a supressão de seis poemas. Só em 1949 essa decisão foi revogada.

Les fleurs du mal possuíam na primeira edição 100 poemas, 48 dos quais já divulgados por revistas e jornais. Os seis poemas condenados pela censura não aparecem na Segunda edição, de 1861. Em compensação Baudelaire acrescentou 35 poemas novos. A edição tida como definitiva saiu postumamente, em 1868, contando com mais 25 inéditos. A obra se divide em seis partes, lucidamente organizadas. É aliás o próprio poeta quem chama a atenção para isso, escrevendo que O único elogio que eu solicito para este livro é que se reconheça que ele não é um puro álbum e que tem um começo e um fim.

O poema Correspondances situa-se logo no início do livro, é o número IV da primeira parte (Spleen et idéia) e deve ter sido escritor por volta de 1855, dois anos antes de ser publicado o livro. Como se sabe, os clássicos não admitiam a relação de uma arte com a outra; daí a classificações de gêneros, rigidamente seguidas. A partir, porém, do renascimento foi-se generalizando a idéia de uma identidade superior entre as diferentes linguagens artísticas. Havia a crença em uma linguagem universal e mágica, através da qual a impressão percebida por um dos sentidos era transmitida aos outros, o que evoluiu para a noção de sinestesia. Esta crença se generalizou com as teorias formuladas por Swedenborg, por volta de 1750: a par de seus estudos sobre a poesia e a matemática, desenvolveu também um sistema de comunicações pessoais com os espíritos e os anjos, descambando logo em misticismo. A doutrina de Swedenborg, bastante coerente, pode ser assim resumida: Trata-se de um sistema tripartido: 1) O terceiro céu ou mundo terrestre, onde existe tudo o que é material, todos os seres, sem distinção de reinos; 2) O segundo céu ou mundo da verdade – é o reino intelectual: os seres são aqui percebidos através de leis que os ligam; 3) O primeiro céu ou mundo celeste ou íntimo – é o reino de Deus.

Esses três céus se relacionam da seguinte maneira:
Como Deus não varia, a sua presença motiva as leis do segundo mundo, as quais então relacionadas com o terceiro mundo através do homem que é, ao mesmo tempo, corpo, alma e intelecto. Assim, os três céus se refletem nele: o homem é o microcosmo; logo, o universo é um GRANDE HOMEM. Mas há também correspondência entre os outros seres através do símbolo: O miosótis, por ser pequeno, de forma simples, de cor apaixonante, remonta à idéia de Deus, funcionando portanto como símbolo (o que é remetido com). As idéias de Swendeborg ficam notavelmente esclarecidas com a leitura de As palavras e as coisas, de Michel Foucault, que fala das quatro similitudes da prosa do mundo: a convenientia, a aemulatio, a analogia e a simpatia.

Foi portanto no século XVIII que se intensificou a conversão dos objetos em símbolos, e Blak foi um dos primeiros a desenvolver esse tipo de linguagem. Hoffmann, na sua Kreisleriana, aplicou também o princípio das correspondências sensoriais. Tanto Swedenborg quanto Hoffmann exerceram influência na poesia de Baudelaire, como ele mesmo o confessa. O soneto de Baudelaire, falando em floresta de símbolo e nas correspondências das imagens ( acústicas, visuais, olfativas), desenvolve a teoria sinestésica e aceita a teoria da linguagem universal, em que as analogias correspondem a revelações metafísicas, identificando-se portanto com os símbolos, elementos concretos através dos quais as coisas materiais se ligam às espirituais que se dissolvem numa tenebrosa e profunda unidade. Desenvolvendo a teoria popularizada por Baudelaire, os simbolistas deram ao símbolo outras funções; as pesquisas sobre o subconsciente e a predominância deste nas artes contemporânea acabaram por incorporar o símbolo da linguagem poética. Daí a importância histórica do texto de Baudelaire.

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