A lenda da prostituta Evlyn Roe

Print Friendly, PDF & Email

A lenda da prostituta Evlyn Roe (Bertold Brecht)

Tradução de Paulo César de Souza

Quando veio a primavera e o mar ficou azul
A bordo chegou
Com a última canoa
A jovem Evlyn Roe.

Usava um pano sobre o corpo
Que era bonito, bem vistoso.
Não tinha ouro ou ornamento
Exceto o cabelo generoso.

Seu Capitão, leve-me à Terra Santa
Tenho que ver Jesus Cristo.
Venha junto, pois somos tolos, e é uma mulher
Como não temos visto.

Ele recompensará. Sou uma pobre garota.
Minha alma pertence a Jesus.
Então pode nos dar seu corpo!
Pois o seu senhor não pode pagar:
Ele já morreu, dizem que na cruz.

Eles navegaram com sol e vento
E Evlyn Roe amaram.
Ela comia seu pão e bebia seu vinho
E nisso sempre chorava.

Eles dançavam à noite, dançavam de dia
Não cuidavam do timão.
Evlyn Roe era tímida e suave:
Eles eram duros e sem coração.

A primavera se foi. O verão acabou.
Ela à noite corria, os pés em sujas sapatilhas
De um mastro a outro, olhando no breu
procurando praias tranqüilas
A pobre Evlyn Roe.

Ela dançava à noite, dançava de dia.
E ficou quase doente, cansada.
Seu Capitão, quando chegaremos
À Cidade Sagrada?

O capitão estava em seu colo
E sorrindo a beijou:
De quem é a culpa, se nunca chegamos
Só pode ser de Evlyn Roe.

Ela dançava á noite, dançava de dia
Até ficar inteiramente esgotada.
Do capitão ao mais novo grumete
Todos estavam dela saciados.

Usava um vestido de seda
Com uns rasgões e remendos
E na fronte desfigurada tinha
Uma mecha de cabelos sebentos.

Nunca Te verei, Jesus
Com esse corpo pecador.
A uma puta qualquer
Não podes dar Teu amor.

De um lado para outro corria
Os pés e o coração lhe começavam a pesar:
Uma noite, já quando ninguém via
Uma noite desceu para o mar.

Isto se deu no fim de janeiro
Ela nadou muito tempo no frio
A temperatura aumenta, os ramos florescem
Somente em março ou abril.

Abandonou-se às ondas escuras
Que a lavaram por dentro e por fora.
Chegará antes à Terra Sagrada
Pois o capitão ainda demora.

Ao chegar ao céu, já na primavera
S.Pedro, na porta, a recusou:
Deus me disse: Não quero aqui
A prostituta Evlyn Roe.

E ao chegar ao inferno
O portão fechado encontrou:
O Diabo gritou: Não quero aqui
A beata Evlyn Roe.

Assim vagou no vento e no espaço
E nunca mais parou
Num fim de tarde eu a vi passar no campo:
Tropeçava muito. Não encontrava descanso
A pobre Evlyn Roe.

Publicações relacionadas

Idílio Idílio (Antero de Quental) de So...
O Vosso Tanque General, É Um C... O Vosso Tanque General, É Um Carro Forte (Bertold Brecht) Derruba uma florest...
Eu Eu (Paulo Leminski) eu quando olho nos olhos sei quando uma pessoa e...
Permanência Permanência (Adolfo Casais Monteiro) Não peçam aos poetas um caminho. O poeta...

Deixe uma resposta