Módulo de verão

Print Friendly, PDF & Email

Módulo de verão (Adélia Prado)

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
N’em um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarrachadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pêlo e arame, um áspero metal.

As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.

As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer;
ó meu amor, vem dormir
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.

Publicações relacionadas

Epitáfio Epitáfio (Walt Whitman) Eu parto com o ar – sacudo minha neve branca ao sol q...
Irene no céu Irene no céu (Manuel Bandeira) Irene preta Irene boa Irene sempre de bom hu...
Canção para uma valsa lenta Canção para uma valsa lenta (Mário Quintana) Minha vida não foi um romance......
A lagartixa A lagartixa (Álvares de Azevedo) A lagartixa ao sol ardente vive, E fazendo ...

Deixe uma resposta