Módulo de verão

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Módulo de verão (Adélia Prado)

As cigarras começaram de novo, brutas e brutas.
N’em um pouco delicadas as cigarras são.
Esguicham atarrachadas nos troncos
o vidro moído de seus peitos, todo ele
— chamado canto — cinzento-seco, garra
de pêlo e arame, um áspero metal.

As cigarras têm cabeça de noiva,
as asas como véu, translúcidas.

As cigarras têm o que fazer,
têm olhos perdoáveis.
Quem não quis junto deles uma agulha?
— Filhinho meu, vem comer;
ó meu amor, vem dormir
Que noite tão clara e quente,
ó vida tão breve e boa!
A cigarra atrela as patas
é no meu coração.
O que ela fica gritando eu não entendo,
sei que é pura esperança.

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