Monólogo de uma Senhora

Print Friendly, PDF & Email

Monólogo de uma Senhora (Augusto dos Anjos)

A Morte me livrou da contingência
A que a matéria bruta não escapa,
De ver meu rosto, etapa por etapa,
Murcho, mirrado, coriáceo, ausência.

O Anjo iníquo da degenerescência
Que azeda o vinho, a alma e a garapa,
E cobre o mundo com a negra capa,
Povoa a terra toda de excrescênclia.

Quando da vida me arrancou chorosa,
Deteve o bisturi da ruga odiosa,
E o triunfo rude da madrasta Hstória.

Liberta dessa carne miserável
Fico guardada bela, inalterável,
Nos Arcanos insondáveis da Memória.

Publicações relacionadas

Os gatos Os gatos (Charles Pierre Baudelaire) ...
Apostila Apostila (Álvaro de Campos) Aproveitar o tempo! Mas o que é o tempo que eu o...
A água chia no púcaro que elev... A água chia no púcaro que elevo à boca (Alberto Caeiro) A água chia no p...
Sonho de um Monista Sonho de um Monista (Augusto dos Anjos) Eu e o esqueleto esquálido de Esquilo...

Deixe uma resposta