O programa suicida da economia

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O programa suicida da economia

(Robert Kurz)


Publicado em 07/07/96 no caderno Mais! da Folha de São Paulo.


Crescimento econômico pode inviabilizar em pouco tempo a existência na Terra. A moeda atua como um robô social, que não diferencia entre feio e bonito.




Já faz quase um quarto de século que o cientista norte-americano Dennis Meadows e seus colaboradores apresentaram o famoso relatório do Clube de Roma sobre “os limites do crescimento”. Nele se mostra que o crescimento exponencial da economia moderna acarreta como consequência necessária, num espaço de tempo historicamente curto, uma catástrofe dos fundamentos naturais da vida. O consumo voraz de recursos e a emissão desenfreada de poluentes, afirma Meadows, põem em xeque a sobrevivência da humanidade.


Em termos empíricos, o resultado é inequívoco e só pode ser contestado por ignorantes. As condições elementares da vida, como a água, o ar e a terra, estão expostas a um crescente processo de envenenamento. A camada protetora de ozônio na atmosfera é corroída. No Sul da Argentina e na Austrália, uma infinidade de ovelhas já pasta com cancros à mostra, e também para os homens o banho de sol torna-se perigoso. A água potável, além de sofrer contaminação, está cada vez mais escassa. Os desertos avançam dia a dia, e há prognósticos de que a guerra do século 21 terá como estopim o controle de mananciais hídricos.


Com uma rapidez inquietante, são extintas espécies da flora e da fauna. As florestas tropicais, a maior reserva natural da Terra, desaparecem num piscar de olhos. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial até hoje, a destruição foi maior do que em toda a história da humanidade. Com a ingestão excessiva de ingredientes tóxicos, o sistema imunológico humano ameaça entrar em colapso (sobretudo nas crianças). Os médicos profetizam o surgimento de novas epidemias, contra as quais não haverá remédio.


A lista das destruições e das catástrofes iminentes poderia ser prolongada infinitamente. A própria beleza do mundo desaparece. A economia de mercado desfigura o semblante da natureza. Quando visitei São Paulo, mostraram-me antigas fotos de um rio no qual se podia banhar, em cujas margens passeavam os habitantes e que constituía um espaço popular de lazer. Tive oportunidade de ver esse rio hoje em dia: uma espécie de esgoto a céu aberto, com águas turvas e malcheirosas, em cujas margens só mesmo os ratos fazem seu passeio. Lamentáveis comparações como esta podem ser feitas em todos os países. Tudo indica que a economia trabalha com mais eficiência para transformar todo o planeta num fedorento depósito de lixo e finalmente extinguir a vida humana.


Desde o estudo de Meadows, pelo menos, o problema do “meio ambiente” tornou-se em todos países objeto de debates políticos. Mas tais debates não são dignos de confiança. O lema é: “Sair à chuva e não se molhar”. Os políticos, como mentirosos profissionais, exortam a humanidade a uma conversão e prodigalizam adágios morais como a indústria prodigaliza lixo. Gastam milhões de litros de querosene para promover reuniões nas quais nada é decidido. Em 1992, reuniram-se no Rio de Janeiro eminências políticas e chefes de Estado de todo o mundo, a fim de deliberar sobre a proteção da natureza, do meio ambiente, da atmosfera e da água. Armou-se um grande aparato para a perfumaria política. Mas o resultado final foi equivalente a zero.


Os próprios homens de bem e dignitários do Clube de Roma e iniciativas afins clamam a plenos pulmões a necessidade de uma “revolução global” para salvar a natureza e a humanidade. Mas desde quando as revoluções são feitas por dignitários e homens de bem?


Na verdade, as propostas do Clube de Roma são tudo menos revolucionárias. Como todos valorosos burgueses e cristãos, esses honoráveis cientistas querem conciliar o lobo e o cordeiro.


“Crescimento qualitativo” e “desenvolvimento sustentado” (sustainability) devem pôr em consonância dinheiro e natureza sobre o pano de fundo de um mercado global pautado pela “eficiência econômica” e pelo “desafio ecológico”. Será esse um objetivo realista ou uma tentativa ingênua de calcular a quadratura do círculo?


A raiz da economia moderna é o dinheiro, a moeda. Mas esta é uma abstração social, pois abstrai de todo conteúdo sensível e qualitativos: US$ 1.000 são uma grandeza abstrata, puramente quantitativa. Já o filósofo Hegel sabia que a moeda representa trabalho social; mas trabalho em forma abstrata, purificado de sua determinação concreta.


Na relação com a moeda, o trabalho aparece como puro consumo de energia humana abstrata. Hegel falava assim de “trabalho abstrato”, uma expressão que seria adotada por Marx. Mas Hegel disse também: “Fazer valer as abstrações no mundo real significa destruir a realidade”. À medida que a moeda põe-se a meio caminho entre homem e natureza, esta última é destruída. A moeda, portanto, também é a raiz da força destrutiva da economia moderna.


Não há dúvida de que a moeda é muito mais antiga do que a sociedade industrial moderna. Mas seu papel foi apenas marginal antes do século 18 (e, em muitos países, até o século 20). A grande maioria dos alimentos era produzida de forma auto-suficiente, sem troca de mercadorias.


Enquanto durou a produção mercantil, a moeda restringiu-se ao papel de intermediária: ela figurava entre duas mercadorias qualitativamente diversas como simples meio de troca. A economia moderna, por sua vez, não é fruto apenas do progresso técnico, como nos querem fazer crer. Muito mais decisiva foi a transformação da moeda, que de um meio passou a ser um fim em si mesma.


Qual o significado disso? Na economia moderna, inverteu-se a relação entre mercadoria e moeda. Não é mais a moeda que figura entre duas mercadorias qualitativamente diversas, mas justamente o contrário: a mercadoria figura no meio de dois modos de manifestação da mesma forma abstrata chamada “moeda”. Essa operação só faz sentido, obviamente, se ao final resultar uma soma monetária maior que no início. A moeda tornou-se um “capital produtivo” que multiplica a si mesmo. Ao contrário dos antigos produtores não-comerciais, o objetivo não é a reprodução material da própria vida, mas o acúmulo de ganhos em forma de moeda.


Somente por meio dessa nova lógica econômica pôde nascer um mercado totalizado, no qual empresários voltados ao lucro concorrem entre si e no qual todos dependem de sua capacidade de “ganhar dinheiro”. A moeda agora está presa a um circuito cibernético fechado sobre si mesmo. Ela se torna independente em seu movimento absurdo como fim último e começa a levar uma vida fantasmagórica.


Assim, o historiador Karl Polanyi chamou a economia de mercado moderna de uma “economia autonomizada” face aos contextos da vida. O próprio socialismo de Estados do Leste e do Sul, com seus “mercados planificados”, não foi mais do que um derivado histórico da mesma lógica econômica.


Não se pode negar que essa economia historicamente nova acelerou de modo vertiginoso o desenvolvimento das forças produtivas. Mas todos os progressos científicos e tecnológicos têm de submeter-se à forma monetária e são por ela impregnados.


Isso significa que o conteúdo sensível da produção é submetido a um procedimento econômico puramente quantitativo com uma aparência de lei física. A moeda trabalha como um robô social que não é capaz de diferenciar entre saudável e nocivo, feio e bonito, moral e amoral.


Sob a pressão da concorrência no mercado, o empresário é obrigado a obedecer, em todas as decisões, à racionalidade monetária. A isso se dá o nome de economia empresarial. Quando se fala de “redução dos custos” e “eficiência”, o que está em jogo é apenas o “interesse” abstrato da moeda. Como um neurótico que, possuído por uma idéia fixa, toma sempre o caminho mais curto entre dois pontos, sem levar em conta o prazer ou a dor, assim também o cálculo empresarial exige a abstrata “redução dos custos”, sem levar em consideração o conteúdo sensível e as consequências naturais.


Embora os empresários falem com insistência de uma melhoria na qualidade, isso se refere sempre ao design do produto isolado, mas nunca ao mundo exterior à empresa. O resultado são “belos” produtos num “meio ambiente” degradado. O próprio conteúdo do produto é muitas vezes mera fachada, a começar pelos alimentos. A indústria alimentícia é ciosa em educar os compradores com uma suave coerção, de modo a modificar-lhes o olfato e o paladar.


No interesse da “eficiência” econômica e da “simplificação” lucrativa para grandes mercados, já desapareceram em todo mundo milhares de tipos de frutas, legumes e carnes. Nos laboratórios, são cultivados alimentos que podem ser embalados com facilidade e não apodrecem, mas cujo “sabor” é injetado quimicamente. A força da oferta oprime toda crítica da procura.


A parte a crescente destruição do prazer sensível e estético, a “redução dos custos” é na verdade uma simples externalização dos custos face à natureza e ao futuro. Do ponto de vista empresarial, a natureza e o futuro são espaços economicamente vazios para além do cálculo de custos, nos quais os “excrementos da produção” (Marx) desaparecem sem deixar vestígios.


Isso não se aplica apenas à emissão de poluentes pela produção, mas também ao transporte. Um mísero frango congelado nos EUA viaja em média 3.000 milhas antes de ser consumido. Se a economia empresarial _em busca de menores custos, menores taxas de câmbio, salários mais baixos e outras vantagens_ aufere ganhos no plano monetário, no plano dos recursos naturais ela promove uma orgia do desperdício.


O crescimento exponencial denunciado pelo Clube de Roma também não é um erro casual, mas resultado necessário do sistema de mercado. A moeda, fechada num circuito cibernético, exige o aumento constante da produção. A concorrência exige o aumento permanente da produtividade.


Como desse modo o produto isolado representa cada vez menos moeda, a produção tem que crescer não linearmente, mas em progressão geométrica. E como nessa dinâmica os investimentos seguem os sinais abstratos da rentabilidade, a opção de um “desenvolvimento sustentado” _qualitativamente definido dentro da economia de mercado_ é uma ilusão. A produção de bens qualitativamente mais significativos ou mesmo de primeira necessidade é automaticamente posta de lado quando deixa de ser rentável em termos monetários; por sua vez, o capital é rápido ao apoiar projetos destrutivos, se estes acenam com lucros generosos.


Dessa maneira, a vida social assume um caráter autodestrutivo. Se é fato que o aumento da produtividade expande o desemprego, é preciso que os mais ricos consumam com uma avidez cada vez maior para permitir o funcionamento do sistema. Por meio do “desgaste programado”, a vida dos produtos é encurtada, e simultaneamente a indústria inventa novas necessidades grotescas e pueris. De um lado, crianças que pedem esmola; de outro, loucos que se consomem até a morte.


A empresa moderna matou mais crianças que o rei Herodes, mas sempre pôde lavar as mãos e remeter-se às taciturnas leis monetárias. Tampouco os assalariados questionam-se sobre o produto de seu trabalho, já que se encontram sob total dependência de seus empregos.


O sistema monetário é responsável por uma esquizofrenia estrutural: todos sabem que sua ação é destrutiva, mas todos mantêm os olhos vidrados nos rendimentos, assim como o coelho na serpente. Por que a opinião pública mostra-se tão indignada com os voluntários suicidas do Hamas, se ela aceita de bom grado o programa suicida global da economia de mercado?


É um tanto crédulo nutrir esperanças de que a política acorrente o lobo do mercado. Um imposto ecológico eficaz é improvável, pois o Estado é nacional, mas a concorrência, internacional. Países com pequeno importe de capital só conseguem concorrer sob as condições da globalização por meio de dumpings ecológicos.


Eis por que o moralismo econômico de países ricos em relação ao Terceiro Mundo é uma hipocrisia. O problema reside na própria economia moderna. A política é sempre cúmplice do dinheiro, já que não possui renda própria. Mesmo o poder precisa ser financiado. Eis por que as aparentes potências dependem do crescimento exponencial da “economia autonomizada”.


Ao que tudo indica, há somente uma única solução radical: a humanidade deve libertar-se do domínio monetário que se tornou independente. Com certeza, um retorno à sociedade agrária pré-moderna não é possível nem desejável. Mas talvez outras formas de cooperação sejam viáveis. Podem as organizações sem fins lucrativos tomar o lugar da economia empresarial? Os economistas dizem que isso é utópico e pouco realista. Eles temem pela depreciação de sua absurda qualificação.


Ora, pois então a própria sobrevivência da humanidade é utópica e pouco realista. Há somente um consolo: tampouco os mandarins plutocratas serão poupados da destruição da natureza. Já posso imaginar que, num futuro próximo, os últimos ricos sentarão na varanda de suas luxuosas casas de campo, com máscaras de gás encobrindo seus rostos diplomáticos, e sorverão de garrafas folheadas a ouro, com auxílio de canudos, as últimas gotas de água potável.

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