Sou meu hóspede

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Sou meu hóspede (Mario Benedetti)

Do livro “Perguntas ao acaso”
Tradução de Julio Luís Gehlen

Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades

procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio

não coleciono padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca

sou tão-só meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba

como hóspede
estritamente meu
no quadro negro da noite
faço uma linha
branca

depois assopro minha brisa
e os postigos e os ramos
tremem

como hóspede de mim
sei de mim o que penso
não é grande coisa

armo minhas barricadas
contra o sono
muito embora o sono
as derrube

sou meu hóspede
por que negá-lo
mas
às vezes também sou
um estranho de mim

quando meu rústico
anfitrião
me olha
sinto que estou
sobrando
e saio fora.

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