Uma criatura

Print Friendly, PDF & Email
Uma criatura(Machado de Assis)

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

Publicações relacionadas

Idealização da Humanidade Futu... Idealização da Humanidade Futura (Augusto dos Anjos) Rugia nos meus centros c...
Anelo Anelo (Johann Wofgang von Goethe) Tradução de Manuel Bandeira Só aos sáb...
Aos Vícios Aos Vícios (Gregório de Matos) Eu sou aquele que os passados anos Cantei na ...
Carnal e místico Carnal e místico (Cruz e Souza) Pelas regiões tenuíssimas da bruma ...

Deixe uma resposta