Arte poética

Print Friendly, PDF & Email

Arte poética (Mario Benedetti)

Do livro “Perguntas ao acaso”
Tradução de Julio Luís Gehlen

É um modo de crescer
no que dura um suspiro
ou maneiras de dizer
de outra maneira o mesmo
que nos ensinam a história
as estações o rio
uma sorte de brincar
com formas e conteúdos
e regras para quem queira
violar as regras do século
engenho contra a asfixia
recurso para o suspiro
mas não a vanglória
nem o que arrasta consigo

é um modo de entender
ou aproximar-se do prodígio
com a paisagem nos olhos
e na alma um calafrio
com a palavra pelos ares
ou o coração em migalhas
aprendendo a transformar
o sobre-humano em sincero
ninguém poderá despojar-nos
nem os sonhos impedir-nos
nem tirar-nos o prazer
nem matar-nos o vivido
nem converter-nos em outro
nem usar-nos de testemunha

é um modo de sentir
e quase como vivê-lo
e se a memória aperta
para isso existe o esquecimento
ou transmutar a recordação
em qualquer outro perigo
se é outono / em primavera
se é inverno / no estio
se é desamor / em amor
e se é amor / em delírio
se é ordem / em acaso
e se é acaso / em destino
o mal que temos
no bom não mais possuído

é um modo de atirar
pela borda o proibido
e mesmo que extraviemos os nomes
adonar-nos de seus símbolos
e arquivar o pobre deus
como assunto concluído
é um modo de ficar
frente a frente com o menino
que fomos alguma vez
sem sabê-lo e sem sofrê-lo
uma forma de assumir
sinais muros e mitos
e não morrer de saudades
nem debruçar-nos no abismo

Publicações relacionadas

Amor Amor (Álvares de Azevedo) Quand la mort est si belle, Il est doux de mourir....
Consulta Consulta (Antero de Quental) de ...
Página branca Página branca (Arnaldo Antunes) O inverno é eterno no pólo norte. Os dias d...
Por que cantamos Por que cantamos (Mario Benedetti) Do livro ...

Deixe uma resposta