Aurora

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Aurora (Federico Garcia Lorca)

De “Poeta em Nova York”
Tradução de William Angel de Mello

A aurora em Nova York tem
quatro colunas de lodo
e um furacão de negras pombas
que chapinham as águas podres.

A aurora em Nova York geme
pelas imensas escadas,
buscando entre arestas
bálsamos de angústia desenhada.

A aurora chega e ninguém a recebe na boca
porque ali não há manhã nem esperança possível.
Às vezes as moedas em enxames furiosos
tardeiam e devoram meninos abandonados.

Os primeiros que saem compreendem com seus ossos
que não haverá paraíso nem amores desfolhados;
sabem que vão ao lodaçal de números e leis,
aos brinquedos sem arte, a suores sem fruto.

A luz é sepultada por correntes e ruídos
em impudico reto de ciências sem raízes.
Pelos bairros há gentes que vacilam insones
como recém-saídas de um naufrágio de sangue.

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