A filosofia míope do capitalismo-cassino

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A filosofia míope do capitalismo-cassino

(Robert Kurz)


Publicado em 27/10/96 no caderno Mais! da Folha de São Paulo.


Oferta de lugar no capitalismo para gigantes como o Brasil não passa de cinismo.




Filosofia, um conceito da Antiguidade grega, significa o mesmo que ”amor à sabedoria”. Originalmente referia-se com isso à doutrina de viver bem e corretamente. Desde o Iluminismo, a filosofia foi tomada como uma espécie de teologia secularizada para explicar o universo e a razão humana. Hoje o conceito de filosofia tornou-se inflacionário. Truques e artimanhas de como se impor e lograr os demais, manias sexuais, alucinações pessoais, métodos de ginástica ou lavagem de cabelo e até mesmo hábitos alimentares são definidos como ”filosofia”. Se alguém toma uns tragos logo de manhã, ou é ao contrário abstêmio, se prefere passar as férias nas montanhas ou na praia, se toma sol com ou sem maiô _a tudo isso se chama pateticamente ”sua filosofia”. Tenistas, astros do futebol, políticos e cantores de ”hit parades” podem discursar horas a fio sobre sua filosofia, e a mídia está repleta deles.


Não tardaria assim que nesse meio tempo também os administradores se vissem forçados a erigir uma filosofia. A filosofia administrativa passou aliás a ditar o figurino na inflação galopante das filosofias. Nenhum produtor de cosméticos, automóveis, macarrão ou revistinhas pornográficas sai mais a campo sem uma filosofia peculiar. E, como cada pessoa tornou-se sua própria empresa e teve de lançar-se a si mesma no mercado, cada indivíduo necessita também de sua própria filosofia administrativa.


O ”amor à sabedoria” assina agora como ”amor à venalidade”. Atingiu-se dessa forma o estágio mais baixo do pensamento humano, embora para o capitalismo isto conste como ”a última palavra em sabedoria”. Filosofia significa, pois, a doutrina de vender bem e corretamente _quer seja a venda de si mesmo ou da escória que se tem de impingir à humanidade.


Filosofias dessa espécie são a maioria das vezes provenientes dos Estados Unidos, embora há muito não sejam mais ”tipicamente americanas”, mas correspondam ao espírito global da época. Elas são normalmente trocadas com mais rapidez do que a roupa de baixo, a exemplo dos gurus da filosofia administrativa e a natureza efêmera das suas conjunturas. Há uma moda de verão e outra de outono dessa filosofia, e a administração nesse meio tempo tem muito a fazer para dar conta do recado. Mal sobra espaço para a própria administração. Um fracasso intelectual segue-se a outro, e o mundo da economia já anda de miolo mole. Ora, mesmo se a filosofia administrativa não for tão profunda quanto o mar, mas no máximo quanto uma poça, ainda assim sua base pode ser bastante firme. Novamente ela dá a fórmula de sua própria ética. Como Immanuel Kant, a filosofia administrativa obsequiou o mundo com um ”imperativo categórico”. A nova máxima leva o nome de ”shareholder value”.


Na imprensa econômica alemã, o conceito de ”shareholder value” foi eleito o ”vocábulo da moda do exercício financeiro de 1996”. Como na era do neoliberalismo tudo o que vem do mundo anglo-saxão é cheirado com respeito e torna-se objeto de conjecturas no continente europeu, assim foi que a interpretação do ”shareholder value” ganhou destaque no discurso econômico-filosófico. Mas o que é afinal ”shareholder value”?


O primeiro mandamento dessa nova ética filosófica da administração prescreve: ”Não terás nenhum outro Deus senão teu acionista”. ”Shareholder value” significa portanto uma raivosa defesa dos interesses acionários por parte da política comercial das sociedades empresariais. Isto seria, como nos fazem ver os bancos de investimento, um movimento ”back to the roots”, isto é, de volta à tarefa original da administração de propiciar ganhos máximos aos acionistas. Por demasiado tempo este mandamento ético da economia teria sido encoberto pelos ”interesses de grupos sociais” (sindicatos, políticos etc.).


Em nome do ”shareholder value” são portanto celebradas orgias de demissões em massa e redução de custos, para extorquir a um mínimo de empregados um máximo de produção e mandar às favas as consequências sociais. A maximização de lucros sempre foi o objetivo, só que agora se trata de uma crescente radicalização dessa vontade contra todos os interesses dentro da sociedade capitalista. Nesse sentido, o projeto do ”shareholder value” corresponde à radicalização do limitado ponto de vista econômico sob a égide da globalização do capital. A vida humana como um todo, o conjunto dos compromissos sociais, o restante da cultura e até mesmo os interesses da burocracia estatal devem subordinar-se à ”produção de rendas atraentes para os acionistas” e, caso necessário, ser imolados nesse altar. A humanidade, a par de seu ambiente natural, é mantida como refém dos grandes acionistas privados e institucionais.


Para uma esquerda política embolorada, esse desenvolvimento poderia novamente dar azo a insultos à magnificência e ao poder perniciosos do espírito capitalista, que empresta aos infames interesses de lucro uma auréola de moralidade. A filosofia do ”shareholder value” não revela porém uma situação salutar, mas uma fraqueza estratégica fundamental do capital.


O problema reside na relação do acionista com o empreendimento prático ou a administração. Um acionista, como todos sabem, é um investidor que compra ações, ou seja, participações numa empresa, com o objetivo de receber uma parcela correspondente do ganho dessa companhia. O acionista, e isso é importante, não é ele próprio o empresário. A decisão de comprar ações de uma empresa terá lá seus motivos, que podem ser tanto de natureza sentimental quanto racional, e repousam sobre alguma informação (por exemplo, sobre o sucesso comercial dessa empresa). Mas, como o acionista não é ele próprio o administrador e portanto não se ocupa ativamente da produção e venda da empresa, ele tampouco pode prescrever uma estratégia ou uma determinada conduta comercial; não pode decidir acerca de investimentos, reorganização, política de pessoal, marketing etc.


Em outras palavras: segundo a racionalidade capitalista, o acionista como mero investidor tem de depositar sua confiança na estratégia, nos conteúdos, nos objetivos e nas potencialidades de um capital produtivo e em sua administração. Essa confiança é o seu risco. Embora o modo de produção capitalista esteja desde o início fundamentalmente distorcido pelo funcionalismo abstrato do dinheiro, no passado o que estava em jogo era o resquício de um propósito qualitativo, a saber, a produção e o consumo de determinado valor de uso concreto (fosse ele comprovado ou inovador). Confiança e risco do acionista diziam respeito não apenas à seriedade dos métodos administrativos, mas à qualidade e boa aceitação do produto empresarial, assim como à sua utilidade.


Só dessa maneira puderam no século 19 os inventores capitalistas como Edison, Siemens, Benz etc. tornar realidade suas idéias (seja qual for o juízo que delas se faça hoje): eles precisavam de investidores que acreditassem nestas idéias e em sua possibilidade de sucesso comercial. Mesmo o maior projeto capitalista do século passado, a integração do mundo pela construção de ferrovias, só foi possível por meio do risco de investidores que, como acionistas das companhias ferroviárias, davam carta branca à administração. De fato, num célebre faroeste, o diretor italiano Sergio Leone esboçou a figura trágica de um administrador de ferrovia a quem, diante da avareza obtusa de seus inimigos e colegas de trabalho, interessa menos o lucro fácil do que o sonho grandioso de ligar pela via férrea as costas Leste e Oeste dos Estados Unidos, de oceano a oceano.


Também na teoria econômica sedimentou-se esse atributo do administrador ou empresário prático. O clássico Adam Smith já justificara a parcela de lucro do administrador pelo fato de este reunir estrategicamente os ”fatores produtivos” do trabalho, solo e capital. Postulado teoricamente por Joseph Schumpeter, o próprio empresário inovador e ”destruidor criativo” das estruturas de produção antiquadas, que era tido como o fiador do desenvolvimento capitalista e hoje é novamente conclamado a plenos pulmões, pressupõe tanto a liberdade estratégica quanto a política comercial do capital produtivo independente dos investidores.


O projeto do ”shareholder value” põe às avessas essa relação clássica entre acionistas e capitalistas práticos. Quanto mais difícil a valorização do capital real, graças aos níveis elevados da produtividade global, e quanto mais independente a produção real em relação aos surtos monetários no mercado financeiro transnacional, tanto menor é o poder estratégico dos ”agentes” industriais. Os empresários inovadores de Schumpeter, por mais que sejam exigidos pela teoria, estão condenados a desaparecer na práxis capitalista desde o início dos anos 90. Steve Jobs foi talvez um dos últimos de sua espécie, pois na filosofia do ”shareholder value” não há mais lugar para pessoas como ele. As idéias e as estratégias do capital industrial real são engolidas pelo interesse monetário nu e cru dos acionistas.


Isso afeta sobretudo o horizonte temporal. Orientar-se de modo estratégico significa pensar e ter objetivos relativamente a longo prazo. Desenvolver e lançar no mercado um produto real dura lá seu tempo, mesmo com os potenciais tecnológicos da microeletrônica. A fim de que novas idéias industriais possam tornar-se realidade, os acionistas e outros investidores têm de cultivar uma certa paciência. Sob pena de dilapidar o patrimônio da empresa, não lhes cabe exigir ”rendas atraentes” de forma imediata, sem tomar em consideração os investimentos necessários e outros pressupostos de médio e longo prazo de ganhos futuros.


Se o horizonte temporal das inovações industriais, da produção e do transporte, não pode, porém, ser encurtado a bel-prazer, hoje a velocidade dos mercados financeiros e de suas rendas ditam as vicissitudes econômicas. David Vice, da Northern Telecom, menciona a ”cultura dos milésimos de segundo dos anos 90”. E Toyoo Gyohteno, antigo ministro das Finanças japonês, relata em uma anedota: ”Há pouco falei com um operador de divisas. Perguntei-lhe quais os fatores que levava em conta ao comprar e vender. Ele respondeu: ‘Muitos fatores, a maioria de curtíssimo prazo, alguns de médio prazo e outros de longo prazo’. Achei muito interessante o fato de que pensasse também a longo prazo e quis saber o que ele entendia por isso. Não sem hesitar por uns instantes, disse-me com toda seriedade: ‘Talvez 10 minutos’. É nesse compasso que se move hoje o mercado”.


Nesse clima evaporam os últimos vestígios de um projeto qualitativo, orientado pelo valor de troca, bem como as estratégias empresariais que abrangem um ou mais ciclos conjunturais. A própria pesquisa dos fundamentos é solapada pelos imperativos da renda máxima a curto prazo. A filosofia do ”shareholder value” é um projeto de extrema miopia, que não necessita mais de nenhum visionário do capital. No lugar dos grandes anunciantes estratégicos, os desmanteladores e abutres das empresas. Por toda parte o comércio é ”salutarmente” reduzido a âmbitos nucleares, cada vez mais rápido a ciranda dá voltas.


Há tempos a renda do comércio real deixou de ocupar o primeiro plano. Como o nome já diz, o ”shareholder value” trata do valor (”value”) de que podem dispor os acionistas (”shareholder”) de forma imediata e a curto prazo, isto é, o valor de curso das ações, não os dividendos. Uma política empresarial que segue a maximização do ”shareholder value” está portanto menos voltada para os ganhos reais e a longo prazo do que para uma maximização do valor de curso das suas ações, não importa a que preço. Neste sentido, a filosofia do ”shareholder value” é um produto dissimulado do capitalismo-cassino. Se no passado as carteiras de ações muitas vezes permaneciam décadas sob a posse do mesmo indivíduo e ainda eram legadas à geração seguinte, hoje boa parte dos investidores privados e institucionais não detém mais portfolios de longo prazo, mas apenas faz suas apostas ao sabor das variações diárias do mercado.


Eis por que nada mais resta aos diretores e administradores do capital real senão pilotar as empresas à maneira camicase. Cada vez mais eles se vêem forçados a desbaratar seu patrimônio. No empenho de dar um rápido retoque à maquilagem do sucesso ilusório, até as reservas são incluídas no balanço. Muitos empresários endividam-se até a medula para manter o curso das próprias ações recomprando-as aos atuais possuidores. Mesmo os mais reacionários dos consultores de empresas e investimentos já sentem vertigens com esse movimento frenético e advertem para um fim funesto. Eis a explicação de Edward Emmer, especialista norte-americano em ”rating”, à revista alemã ”Wirtschaftswoche”: ”Sob o manto do ‘shareholder value’ já ocorreram os piores descalabros. Muito do que aí se passa foge a toda responsabilidade (…). Há dúzias de casos nos quais os empresários, em nome do ‘shareholder value’, são impelidos à falência”.


Ora, não é o equívoco subjetivo que equaciona as idéias da administração à memória curta do mercado financeiro, mas a limitação interna da própria valorização real do capital. Eis por que as advertências conservadoras dos guardiães da virtude do capitalismo real caem no vazio. Por meio da automatização, racionalização e globalização, o capital subtraiu de próprio punho o alimento da força de trabalho humana. O sistema frenético, ávido de valorização, começa a devorar sua própria carne. E a capitulação estratégica da administração industrial impõe-se em todas as elites capitalistas.


Mesmo nos impérios financeiros, os magnatas são substituídos por jovenzinhos espinhentos à frente de terminais de computadores, que brincam de economia mundial como bebês em tanques de areia. Até o horizonte temporal da política baixa ao nível de videoclipes. Com a filosofia do ”shareholder value”, o radicalismo neoliberal de mercado excedeu seus próprios limites. Agora ele trabalha com minucioso afinco em prol de sua ruína histórica.

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