Revista Verde

REVISTA VERDE

Uma publicação modernista nascida no interior de Minas.





A Verde


O ano de 1927 ficou na história de Cataguases porque a vanguarda literária do Brasil olhou para a cidade, tornando a sua presença obrigatória nos compêndios sobre o modernismo brasileiro. Rosário Fusco, Henrique de Resende, Francisco Inácio Peixoto, Guilhermino César e Ascânio Lopes inventaram e lideraram o movimento que ofereceu ao país a “Revista Verde” , uma publicação modernista nascida no interior de Minas.

Para se entender a “Verde” como resultado dos objetivos de um grupo, e não um evento episódico, ou acontecimento pitoresco por sua jovialidade e origem, é preciso discorrer sobre a trajetória dos futuros integrantes da revista. Quando seu processo de maturação é colocado, a revista adquire feição de fruto de um trabalho persistente.

A “Verde” foi ainda importante para a solidificação do movimento modernista em termos nacionais: representou a conquista do interior brasileiro e rejuvenescimento do modernismo. Todos os integrantes da Verde já haviam redigido poemas ou crônicas no Jornal “O Cataguases”. Guilhermino editou “O Mercúrio”, periódico da Associação Comercial, e publicou artigos para “O Estudante”, jornal do Ginásio. Rosário Fusco, juntamente com João Luiz dos livros, lançou Jazz Band, tablóide que teve única edição e se auto-denominava “quinzenário moderno e mundano”.

A revista Verde, com detalhes verdes na capa, saiu em Setembro. Seu primeiro número foi exclusivamente mineiro, contando por exemplo com a colaboração de Carlos Drummond de Andrade, Emílio Moura e Martins Mendes. Problemas de ordem financeira dificultaram a manutenção da periodicidade mensal da revista.

O quinto número da primeira fase da verde, só foi lançado em Maio, motivando uma brincadeira dos ases. Eles transformaram os detalhes verdes em vermelho alegando que a demora no lançamento da revista ocasionou seu amadurecimento. Na segunda fase foi lançado apenas um número em homenagem a Ascânio Lopes, morto prematuramente.

Mario de Andrade não poupava esforços para garantir o sucesso da revista. Pedia para seus amigos e correspondentes contribuições financeiras e artigos, auxiliava na venda da Verde, pois reconhecia o valor da revista para aquele momento do modernismo brasileiro. A Verde era um fenômeno nacional, os rapazes da Verde conquistaram o Brasil para os modernistas, devolvendo através da ação e intuição os frutos da reflexão dos centros da produção intelectual do Brasil. Os ases lançaram a revista, editaram livros, redigiram crônicas e poesias para outras publicações modernistas. Participaram e posicionaram-se nas querelas causadas pelo desentendimento entre Mário e Oswald de Andrade. A Verde conquistou o Brasil, recebeu contribuição de diversos países da América Latina e teve o poema do poeta francês Blaise Cendras escrito para os jovens de Cataguases.

Para Cataguases, seus poetas foram um marco que até hoje não encontrou superação.

Francisco Inácio Peixoto permaneceu na cidade, erigiu um patrimônio arquitetônico modernista, praticou e incentivou o mecenato. Graças ao seu trabalho, Portinari, Djanira, Burle Marx, Tenreiro, deixaram suas marcas em Cataguases. Francisco Inácio Peixoto encontrou, ainda, disponibilidade para a literatura, publicando poesias, romances e contos.

Rosário Fusco, traduziu clássicos da literatura, realizou diversos romances como “O Agressor”, um dos primeiros representantes brasileiros do realismo fantástico. Guilhermino César mudou-se para o Rio Grande do Sul, onde se dedica à vida acadêmica, redigindo livros de crítica literária e poesias. Henrique de Resende organizou a história afetiva de Cataguases no livro “Pequena História Sentimental de Cataguases”, e outras publicações no gênero.




Como nasceu a VERDE – 1927


Foi em maio deste ano que conheci Rosário Fusco, e, logo em seguida, todos aqueles que hoje fazem parte do grupo VERDE. Autor, que sou, de um livro de poemas (Turris eburnea, M. Lobato & Comp. – 1923 – edição esquecida) entendeu Rosário de mandar-me, por isso, alguns versos seus, acompanhados de uma carta interessantíssima.

Saí imediatamente a procura do poeta pelas poucas ruas da cidade pequenina, a perguntar a uns e a outros onde era a sua casa, onde trabalhava, etc. Não trabalhava nem tinha casa. Mesmo assim, com pouco sacrifício, topamos logo. Depois desse dia vieram outras cartas de Rosário e outros poetas. Resultado: em Junho éramos nove, dos quais oito escritores e o pianista Renato Gama.

Foi um pasmo.

Rosário levantou a idéa do Jazz band, jornaleco safado e ilegível. Propuz então uma revista. Quatorze dias depois saía o primeiro número da VERDE. Saiu porque não pensamos na responsabilidade. Nem programa. Nem dinheiro. Nem colaboração. Nem nada. Juntamos umas coisas e mandamos imprimir. Colaboração, dinheiro, programa e responsabilidade viriam depois.

Boas notícias. De jornais que não esperávamos. Resolvemos então pedir a colaboração, mas na quase certeza de que tudo ia ser negado. Pois que! Colaborar, gente grossa de S. Paulo, Rio, Belo Horizonte e Juiz de Fora, numa revista de Cataguases, cafundó dos diabos?

Mas, com surpresa nossa, vieram vindo as comidas. E no dia em que chegaram as do Mário e do Alcântara, o rondó do brigadeiro e o aventureiro Ulysses, foi um sarilho na redação emprestada da Verde. E veio vindo a canalha grossa.

Eis que um dia, porém, houve uma desconfiança. Foi quando recebemos coisa de Blaise Cendrars e um bilhetinho sujo do Milliet. Eu falei pro Fusco: isto é trote. Trote do Alcântara, do Mário, de todos. O Cendrars não está no Rio, e, mesmo que estivesse, não nos mandaria verso. Quanto ao Milliet é um safadão de marca. Eles querem é ridicularizar a gente. E danamos a procurar o nome do Cendrars nos jornais. Estávamos abatidos com a desconfiança. Seria uma vergonha. No dia seguinte veio o Rosário, com as suas pernas quilométricas, trazendo uma página do Correio da Manhã, onde vermelhava um traço marcando a notícia. Cendrars no Rio! Que alívio! Acreditamos então na autenticidade do verso do francês, no bilhete do Sérgio e retiramos em seguida o adjetivo com que ultrajamos este último.

Sai o terceiro número. Alguns críticos, o que ainda mais nos embaraçou, consideram VERDE a melhor revista literária moderna no Brasil, pelo fato de haver congregado num só grupo todos os grupos modernistas de valor do país.

Cataguases, a pobre cidadela, que tem sido vítima da pena de muitas penas, sem intuito nenhum de trocadilho, é promovida a centro intelectual. Mário e Alcântara, os bichões, escrevem-nos pedindo para que VERDE não morra.

Aí por esta altura ficamos importantes…

Pensamos mesmo num livro. Ascânio, Fusco e eu. Chamamos à parte o Daniel, chefe das oficinas emprestadas da VERDE. Tudo combinado. Coisa barata e boa. E em breve, ou melhor, por estes dias, os leitores terão os Poemas Cronológicos. Depois virá o livro de Francisco Peixoto. E logo em seguida Martins Mendes e Guilhermino César, conjuntamente, editarão vinte poemas. É que em Minas o espírito moderno se tem demonstrado apenas por meio de revistas efêmeras e jornais de diminuta procura. Embora partindo de nós, achamos que o exemplo merece consideração especial.

Belo Horizonte, com um grupo brilhantíssimo, sem jornal e sem revista, precisa lançar mão do livro. E Juiz de Fora também. E esses intelectuais levarão sobre nós uma grande vantagem: a vantagem de haver entre eles bons prosadores – coisa que anda em crise por cá.




Manifesto



Este manifesto não é uma explicação. Uma explicação nossa não seria compreendida pelos críticos da terra, pelos inumeráveis conselheiros que dogmatizam, empoleirados nas colunas dos jornais mirins do interior. E seria inútil para os que já nos compreenderam e estão nos apoiando.

Nem é uma limitação dos nossos fins e processos, porque o moderno é inumerável. Mas é uma limitação entre o que temos feito e o que os outros fizeram. Uma separação entre nós e os nossos adesistas de última hora, cuja adesão é um desconforto.

Pretendemos também focalizar a linha divisória que nos põe no lado oposto ao dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros. Não sofremos a influência direta estrangeira. Todos nós fizemos questão de esquecer o francês.

Mas não pense ninguém que pretendemos dizer que somos – os daqui – todos iguais. Somos diferentes. Diversíssimos até. Mas, muito mais diferentes do pessoal das casas vizinhas.

Nossa situação topográfica faz com que tenhamos, é fato, uma visão semelhante do conjunto brasileiro e americano, e da hora que passou, passa e que está para passar. Daí a união do grupo VERDE. Sem prejuízo, entretanto, da liberdade pessoal, processos e modo de cada um de nós. Um dos muitos particulares característicos do nosso grupo é o objetivismo. Todos somos objetivistas. Explicação? Não precisa. Basta meter a mão na cabeça, pensar, comparar e concordar.

O lugar que é hoje bem nosso no Brasil intelectual foi comparado tão somente ao do forte grupo de Belo Horizonte, tendo à frente o entusiasmo moço de Carlos Drummond de Andrade, João Alphonsus, Martins de Almeida e Emílio Moura, com a fundação da Revista, que embora não tendo tido vida longa, marcou época na história da inovação moderna em Minas (Eles é que primeiro catequizaram os naturais de Minas e nos animaram com o exemplo para a publicação de VERDE).

Apesar de citarmos os nomes dos rapazes de Belo Horizonte, não temos, absolutamente, nenhuma ligação com o estilo e vida literária deles. Somos nós. Somos VERDES e este manifesto é feito especialmente para provocar um gostosíssimo escândalo interior e até vaias íntimas.

Não faz mal, não. É isso mesmo.

Acompanhamos São Paulo e Rio em todas as suas inovações e renovações estéticas, quer na literatura como em todas as artes belas, não fomos e nem somos influenciados por eles, como querem alguns. Não temos pais espirituais. Ao passo que outros grupos, apesar de gritos e protestos no sentido do abrasileiramento de nossos motivos e nossa fala, vivem por aí a pastichar o “modus” bárbaro do Sr. Cendrars e outros franceses escovados ou pacatíssimos.

Não temos pretensão alguma de escanchar os nossos amigos. Não. Absolutamente. Queremos é demonstrar apenas a nossa independência no sentido escolástico, ou melhor,“partidário”.

O nosso movimento verde nasceu de um simples jornaleco da terra – JAZZ BAND. Um jornalzinho com tendências modernistas que logo escandalizaram os pacatíssimos habitantes desta Meia Pataca. Chegou-se mesmo a falar em bengaladas.

E daí nasceu a nossa vontade firme de mostrar a essa gente toda que, embora morando em uma cidadezinha do interior, temos coragem de competir com o pessoal lá de cima.

A falta de publicações, casas editoras e dinheiro tinha feito com que ficássemos à espera do momento propício para aparecer. Mas a VERDE saiu. VERDE venceu. Não esperamos aplausos ou vaias públicas, porque aquilo que provoca verdadeiro escândalo põe o brasileiro indiferente, na aparência, com medo ou com vergonha de entrar no barulho.

Sim. Não esperamos aplausos ou vaias públicas. Os aplausos de certos públicos envergonham a quem os recebe, porque nivelam a obra aplaudida com aqueles que a compreenderam. Não fica atrás a vaia. A vaia é às vezes ainda uma simulada expressão de reconhecimento de valores.

Por isso preferimos a indiferença. Esta será a mais bela homenagem que nos prestarão os que não nos compreendem. Por que atacar a VERDE? Somos o que queremos ser e não o que os outros querem que sejamos. Isto parece complicado, mas é simples. Exemplo: os outros querem que escrevamos sonetos líricos e acrósticos portugueses com nomes e sobrenomes. Nós preferimos deixar o soneto na sua cova, com os seus quatorze ciprestes importados, e cantar simplesmente a terra brasileira. Não gostam? Pouco importa.

O que importa, de verdade, é a glória de VERDE, a vitória de VERDE. Esta já ganhou terreno nas mais cultas cidades do país. Considera-nos a grande imprensa os únicos literatos que têm coragem de manter uma revista moderna no Brasil, enquanto o público de nossa terra, o respeitável público, nos tem na conta de uns simples malucos, criadores de coisas absolutamente incríveis.

É positivamente engraçado.

E foi para dizer estas coisas que lançamos o manifesto de hoje, que, apesar de tão encrencado, nada tem de manifesto, apenas um ligeiro rodeio em torno da nossa gente, do nosso meio.

RESUMINDO

1.º Trabalhamos independentemente de qualquer outro grupo literário.

2.º Temos perfeitamente focalizada a linha divisória que nos separa dos demais modernistas brasileiros e estrangeiros.

3.º Nossos processos literários são perfeitamente definidos.

4.º Somos objetivistas, embora diversíssimos uns dos outros.

5.º Não temos ligação de espécie nenhuma com o estilo e o modo literário de outras rodas.

6.º Queremos deixar bem frisada a nossa independência no sentido “escolástico”.

7.º Não damos a mínima importância à crítica dos que não nos compreendem.

Cataguases/1927

Enrique de Resende, Ascânio Lopes, Rosário Fusco, Guilhermino César, Fonte Boa, Martins Mendes, Oswaldo Abritta, Camilo Soares, Francisco I. Peixoto.




Seus poetas





ASCÂNIO LOPES

Cataguazes

Para Carlos Drummond de Andrade

Nem Belo Horizonte, colcha de retalhos iguais,
cidade européia de ruas retas, árvores certas,
casas simétricas,
crepúsculos bonitos, sempre bonitos;
Nem juiz de Fora. Ruído. Rumor.
Apitos. Klaxons.
Cidade inglesa de céu enfumaçado, cheio de chaminés negras;
Nem Ouro Preto, cidade morta,
Bruges sem Rodenbach,
onde estudantes passadistas continuam a tradição das coisas que já esquecemos;
Nem Sabará, cidade relíquia,
onde não se pode tocar, para não desmanchar o passado arrumadinho;
Nem Estrela do Sul, a sonhar com tesouros,
tesouros nos cascalhos extintos de seu rio barrento;
Nem Uberaba, nem, nem, cidades arrivistas de gente que não pretende ficar:
Nã-o ! Cataguazes… Há coisa mais bela e serena oculta nos teus flancos.
Nas tuas ruas brinca a inconsciência das cidades
que nunca foram, que não cuidam de ser.
Não sabes, não sei, ninguém compreenderá jamais o que desejas, o que serás.
Não és do passado, não és do futuro; não tens idade…
Só sei que és
a mais mineira cidade de Minas Gerais…
Nem geometria, nem estilo europeu, nem invasão americana de bangalôs derniecri.
Tuas casas são largas casas mineiras feitas na previsão de muitos hóspedes.
Não há em ti o terror das cidades plantadas na mata virgem.
Nem o ramerrão dos bondes atrasados, cheios de gente apressada.
Nem os dísticos de aqui esteve aqui aconteceu.
Nem o tintim áspero dos padeiros.
Nem a buzina incômoda dos tintureiros.
Teus leiteiros ainda levam o leite em burricos.
Os padeiros deixam o pão à janela (cidade mineira).
Teu amanhecer é suave.
Que alegria de só ter gente conhecida faz teu habitante voltar-se para cumprimentar
todos que passam.
Delícia de não encontrar estrangeiros de olhar agudo esperto mau, a suspeitar
riquezas nas terras.
Alegria dos fordes brincando (são dois) na praça.
(Depois vão dormir juntinhas numa só garagem).
Jacaré!
João Arara!
João Gostoso!
teus tipos populares.
A criançada atira-lhes pedras e eles se voltam imprecando.
Rondas alegres de meninas nas ruas, às tardes, sem perigo de veículos,
papagaios que se embaraçam nos fios de luz, balões que sobem,
foguetes obrigatórios nas festas de chegada do chefe político.
Jardins onde meninas ariscas passeiam meia hora só antes do cinema.
Ar morno e sensual de voluptuosidade gostosa que vibra
nas tuas tardes chuvosas, quando as goteiras pingam nos passantes
e batem isócronas nos passeios furados.
Há em ti a delícia da vida que passa porque vale a pena passar,
que passa sem dar por isso, sem supor que se vai transformando.
Em ti se dorme tranqüilo sem guardas-noturnos.
Mas com o cricri dos grilos,
o ranram dos sapos,
o sono é tranqüilo como o de uma criança de colo.
Vale a pena viver em ti.
Nem inquietude,
nem peso inútil de recordações
Mas a confiança que nasce das coisas que não mudam bruscas,
nem ficam eternas.




Serão do menino pobre

Na sala pobre da casa da roça
papai lia os jornais atrasados.
Mamãe cerzia minhas meias rasadas.
A luz frouxa do lampião iluminava a mesa
e deixava nas paredes um bordado de sombras.
Eu ficava a ler um livro de histórias impossíveis
— a vista estava cansada, a luz era fraca,
e passava de leve a mão pelos meus cabelos,
numa carícia muda e silenciosa.

Quando Mamãe morreu
o serão ficou triste, a sala vazia.
Papai já não lia os jornais
e ficava a olhar-nos silencioso.
A luz do lampião ficou mais fraca
e havia muito mais sombra pelas paredes…
E, dentro em nós, uma sombra infinitamente maior.




FRANCISCO INÁCIO PEIXOTO

Pedreira

Dependurados no espaço
Eles ficam ali o dia inteiro
Arrancando faíscas
Furando buracos na pedreira enorme
que reflete como um espelho
As suas sombras primitivas.
À tarde ouve-se um estrondo
E o eco repete a gargalhada das pedras
Que vieram rolando da montanha.

Os homens de pele tostada
Descem então dos seus esconderijos
E caminham pras suas casas
Vagarosamente decepcionados
Segurando nas mãos cheias de calos
As ferramentas com que procuram
Há uma porção de anos
O segredo que lhes dê
Uma nova revelação da vida…




GUILHERMINO CÉSAR

Campeiro de Minas Gerais

Campeiro mulato de sol
Você que dormiu
sem medo de bruxos, sacís-pererês
botando a cabeça fervendo de amores
no couro estendido…
Você não ouve ali perto
de dia de noite
a barulheira da boca da mina?

São filhos da nossa terra também.
Largaram a boiada no morro
serenatas nas ruas familiares
e foram pra noite de ferros tinindo
procurar a lua de metal
escondida nas montanhas duras
saltando depois nos cadinhos…

Você não está ouvindo o ruído dos pilões na baixada
triturando a pedra que vem do fundo
nos vagonetes ligeiros ?

E aquele suor que os companheiros estão suando…
A gente pensa que é sangue
mineiro campeiro!
Eles deixaram a casa sonhando riqueza
e agora estão magros e feios.

Como você dorme bem
cansado das lidas campeiras.
Eles nem podem dormir sossegados:
a mina não fica sozinha um momento.
Mineiros que saem
mineiros que vêm
as máquinas sempre rodando.

Campeiro queimado de sol
vai ver o trabalho dos seus companheiros
nas galerias de ar frio
na noite constante!
Mineiro das minhas Gerais
você não acorda?
Vai ver o trabalho dos outros mineiros
dos mineiros-mineiros enterrados na mina
ouvindo os patrões em fala estrangeira.




HENRIQUE REZENDE

As Usinas

este canto da terra verde
é para Rosário Fusco,
meu amigo.

Desce o rio, lento, pesadão, molengo.
Mas, de repente,
se despenha no desespero do despenhadeiro.
É a cachoeira, a acachoar, zoando e retumbando no seio virgem da floresta virgem.

E, além, são as águas, que se refreiam,
que se represam,
e é a luta esplêndida de mil cavalos imaginários
nos canos grossos,
nos tubos longos,
pelas turbinas adentro, — em turbilhão.

E, então, lá no alto, à luz do dia, apoteóticamente,
as fábricas gemem,
os teares cantam,
as serras guincham,
— e, à noite, como que num milagre, é a cidadela
toda esplendente de alampadários.







Importância da Revista VERDE



(…) Enrique de Resende foi a figura de maior relevo no grupo literário surgido em torno da revista VERDE, que teve papel marcante em nossa revolução intelectual e chegou a ecoar mesmo além de nossas fronteiras.

A contribuição de Minas para o Movimento Modernista não surgiu nem em Belo Horizonte, sua capital administrativa, nem em Juiz de Fora, sua capital industrial; surgiu numa cidadezinha singela, mas cheia de espírito progressista, com a revista VERDE em Cataguases.

E o fazendeiro poético da VERDE não tem frutos a cair de maduros. Continuou VERDE em seu sonho, porque em sua arte circula sempre uma seiva de primavera.
Com essas palavras, entretanto, temos enfim aberta a porteira da fazenda lírica… Não fazendo soar seus gonzos num dolente gemido, mas num grito longo de arrebatamento e entusiasmo.
É tempo agora de apurar o ouvido para as árias que soam no saudoso solar e passear os olhos na beleza do sítio de lavouras douradas e de bosques sonoros que se perdem, longe, entre alcatifas de flores.

MURILLO ARAUJO
Prefácio de “Obras Completas” de Enrique de Resende Gráfica Olímpica Editora, 1977



Tantos anos passados, depois daquela revelação VERDE de Cataguases, que foi um momento marcante na poesia moderna brasileira, é um encantamento ler e reler ENRIQUE DE RESENDE, que agora, de súbito, reaparece com a mesma frescura de outrora, a mesma expressão lírica, que fez sua poesia a continuadora natural da lira do pobre ALPHONSUS. Essa Fazenda do Rochedo, agora revelada, está cheia da alma de Minas. E os sonetos, que belos são! Tudo em plena forma, sem que o tempo tivesse em nada apagado o brilho interior, tão suave e lírico, de sua poesia.

TRISTÃO DE ATHAIDE
Correio da Manhã, 1957



(…) Se as pesquisas de estudiosos de cinema não apontam relação de causa e efeito entre as produções cinematográficas e o nascimento de um grupo modernista, pelo menos temos que admitir que o ambiente foi o mesmo e algumas relações pessoais são inegáveis. ENRIQUE DE RESENDE, conhecido desde 1923 por sua obra de traços simbolistas TURRIS EBURNEA, fez letreiros para PRIMAVERA DA VIDA, filme de 1925-1926, um dos primeiros de HUMBERTO MAURO. E foi o mesmo ENRIQUE DE RESENDE que os jovens idealizadores de VERDE procuraram para dar credibilidade ao projeto inovador.

CECÍLIA DE LARA
dezembro de 1978
A “alegre e paradoxal” Revista VERDE de Cataguases
Edição do Programa de divulgação cultural da Metal Leve



ENRIQUE DE RESENDE integrou-se como um dos valores altos da fundação da VERDE, considerada revolucionária nos idos de 1927 a 1929. Embora vivendo fora de Cataguases, ENRIQUE DE RESENDE sempre estava aqui revendo seus pagos e paisagens, sua gente, sua vida e seus amigos, que cantou em poemas imorredouros.

LEVI SIMÕES DA COSTA
do livro “A Poesia Mineira no Século XX”
de ASSIS BRASIL – Ed. Imago / 1998



MODERNISTA COM RAÍZES CLÁSSICAS ( Matéria de RONALDO CAGIANO – jornal ” O Tempo”, BH e ” Jornal de Letras “, RJ / setembro / outubro de 1999 )

Passou despercebido no último 13 de agosto – data em que a literatura brasileira também perdia uma de suas melhores vozes, o escritor baiano Herberto Sales – o centenário do escritor Enrique de Resende, um dos expoentes do modernismo mineiro. Descendente dos fundadores de Cataguases, marcou sua presença nas letras nacionais, tendo sido um dos signatários da
revista “Verde” (1927-1929), vertente mineira do movimento literário que eclodiu em São Paulo no rastro da epopéia cultural de 22.

Pouco antes de morrer, numa conversa sobre cultura e arte, panoramizando a literatura mineira, o saudoso professor de literatura Guanabaro Rossi citava o fato de Enrique de Resende ter sido considerado pela crítica especializada um dos melhores poetas líricos nacionais, embora participasse do grupo modernista que surgiu na segunda metade da década de
20 em Cataguases. Realmente, não era difícil perceber esses traços em sua poética. Vindo de uma tradição clássica, de versos refinados e prosa diáfana, influenciado por escolas literárias européias, Enrique era um modernista híbrido, pois tinha matizes das correntes tradicionais. Pude perceber isso, quando fui compulsar algumas de suas obras, constantando ser
ele detentor de um discurso literário esmerado, não obstante sua opção pelas tendências de ruptura surgidas depois da Semana de 22, cujos ecos em Cataguases foram sentidos com a edição da revista “Verde”.

Enrique de Resende, que nasceu na Fazenda do Rochedo em 1899 – era irmão de dona Ophelia Resende, professora de francês no antigo Gymnasio Municipal de Cataguazes e preletora de muitas gerações – ocupou cargos de destaque no serviço público, mas a precoce vocação literária fê-lo trilhar o caminho das Letras, com incursões acadêmicas e presença marcante
na crítica. A revista “Verde” foi o impulso a uma vocação que já tinha claros indícios de prosperidade. Quando juntou-se aos audazes moços ginasianos de dezessete anos (Rosário Fusco, Ascânio Lopes, Guilhermino César, Chico Peixoto, Martins Mendes, Oswaldo Abritta e Fonte-Boa) que fundaram aquela revista de literatura que chocou o Brasil pela ousadia e
independência, ele já contava com vinte e oito anos e sua experiência foi fundamental para a unidade do grupo. Nesta época, Ribeiro Couto exclamava: “Todo o Brasil está perplexo: existe Cataguases!”

Sua poesia contém um forte apelo lírico, com uma fusão de elementos simbolistas, parnasianos e modernistas. A prosa, confeccionada numa linguagem depurada, denota a sua visão de esteta preocupado com o burilamento, com a perfeição, que nos faz lembrar, sobretudo na crônica, a dicção cristalina de grandes cultores do gênero, como João do Rio, Manuel
Bandeira, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, Danilo Gomes, Hélio Pellegrino e Carlos Drummond de Andrade. Em narrativa memorialística sobre a terra natal, há um fluxo sentimental, não piegas, um modo telúrico de falar do passado, da cronologia, dos acontecimentos políticos, das vitórias culturais, do progresso econômico, tudo com uma singeleza, com uma digestiva forma de contar as coisas, em que o encadeamento dos fatos não prescinde de uma análise humana e romântica, tirando do registro cronológico a sua conotação oficialesca e formal.

RONALDO CAGIANO
(O Tempo, Belo Horizonte / setembro de 1999
Jornal de Letras / outubro de 1999 )



(…)
A Verde foi uma revista ágil, bem impressa, variada e com numerosa colaboração nacional e estrangeira. Informativa, com curiosa propaganda do comércio e indústria da cidade. Publicava poemas, crítica literária e resenha de livros. Apresentou-se bem mais arrumada que sua conterrânea mais velha A REVISTA, de Carlos Drummond de Andrade (em 1978, patrocinada pela METALEVE).

A Verde teve muita repercussão, andou pelo Brasil de Sul a Norte, recebeu elogios e críticas, deu seu recado, cumpriu sua tarefa e projetou Cataguases e seu grupo de escritores para o Brasil e… para o mundo.
(…)
Sete décadas depois, o verdes estão todos mortos. Viraram nome de rua. O rio continua correndo, vagaroso. E o tempo vai passando. Mas ficou de tudo, de todos, uma marca, um poema, um verso, o testemunho de uma geração.

Delson Gonçalves Ferreira é professor de
literatura, autor de
“Ascânio Lopes – Vida e Poesia”
“Cartas Chilenas- Retratos de uma Época”


“Eu fazia cinema, os verdes faziam literatura”.
(Humberto Mauro).




Arte na cidade dos Verdes


Veja este texto com imagens.


Através de Oscar Niemeyer, a quem havia encomendado o projeto de sua residência em 1940 e do Colégio (1945), Francisco Inácio Peixoto traz a Cataguases Cândido Portinari, pintor modernista, já na ocasião de grande importância, tendo obras no Museu de Arte Moderna de Nova York (1938) e sendo autor de três painéis para o Pavilhão brasileiro da Feira Mundial (1939). A 11 de Dezembro de 1949 é inaugurado o mural “Tiradentes” .

Nele verifica-se o pós-cubismo desenvolvido pelo artista à época. O tema, por seu caráter narrativo-histórico, acaba por anunciar uma necessidade ilustrativa, onde se revelam alegorias à liberdade como correntes partidas, membros expostos, figuras em lamentação, além, é claro, do fundo esquematizado das referenciais montanhas de Minas Gerais.

Se por um lado, a partir da construção do Colégio de Cataguases e de outros edifícios públicos sugere-se o convívio cotidiano com a modernidade, por outro a população de maior poder aquisitivo se interessa pela aquisição de acervos modernos propiciando o surgimento de coleções como a da Sra. Josélia Pacheco e da artista plástica Nanzita Gomes.

Ao longo dos anos 50, aparece uma série de painéis e esculturas, que irão compor o ambiente modernista da cidade.

Em Novembro de 1950 hospeda-se em Cataguases o artista tcheco Jan Zack, tendo sido incumbido da execução do monumento à memória do professor Antônio Amaro, obra concluída em 1927 que hoje se encontra no Colégio de Cataguases. Além dessa, outras obras de Jan Zack enriquecem o patrimônio artístico de Cataguases como as duas representações de “Mulher” (uma no jardim de entrada da residência de Francisco Ignácio Peixoto -1950) e outra no jardim do Hotel Cataguases -1951).

Em todas as três obras vê-se a preocupação com o tratamento dos volumes, em formas esquematizadas, as mulheres apresentam linhas arredondadas, volumetria compacta e arcaizante sem detalhamento. Nos anos subseqüentes, incrementa-se a encomenda de painéis decorativos e monumentos na cidade.

De 1956 temos o painel “Criação do Mundo” de Emeric Marcier no Educandário Dom Silvério. Ainda no Educandário vê-se, do lado exterior, o mural de azulejos de Anísio de Medeiros, composto por diagonais formadas por pássaros em desenhos simétricos.

A representação de fundo em azul com grandes espaços livres em branco dá à composição o interessante efeito de positivo/negativo, à maneira alegre e poética da fase de papéis recortados de Matisse. Os dois artistas viriam a concretizar mais um projeto similar (pintura interna de Marcier e painel de azulejos de Anísio Medeiros) na residência da pintora Nanzita Gomes, sendo o primeiro uma cena do Rapto de Helena de Tróia e o segundo uma composição figurativa de uma “Feira Nordestina” (1958).

No ano de 1956, Cândido Portinari e Bruno Giorgi são contratados para realizarem um painel e uma escultura, que comporiam parte do projeto arquitetônico de Francisco Bolonha erguido em homenagem a José Inácio Peixoto sob a encomenda dos empregados da Cia Industrial Cataguases.

A escultura de Bruno Giorgi, chamada “A Família”, destaca-se como um grupo escultórico de volumetria recortada em formas estilizadas tendendo à abstração, que viria a caracterizar a sua fase posterior. Já o painel de azulejos vitrificados, Portinari contou com a execução de Américo Braga a partir de um projeto cujo estudo original se encontra na residência da Sra. Josélia Pacheco. Nesse painel, Portinari, a partir de uma organização espacial clássica, elabora figuras geometrizadas ainda decorrentes da influência cubista, mostrando o trabalho das mulheres fiandeiras. A temática de fundo social exalta a participação feminina no trabalho de fiação e tecelagem.

Nos anos 60 Cataguases recebe a obra de Djanira num painel de azulejos para a Igreja de Santa Rita. A cena composta sem a preocupação perspectiva clássica, destaca-se pelos planos sobrepostos ao modo dos ícones pré-rafaelistas. O “Composité” formado pela variação da padronagem dos azulejos e o “degradé” em tons de azul evocam a religiosidade popular e a tradição colonial portuguesa.

A onda da pintura mural e dos painéis se espalha por Cataguases nas residências particulares e prédios públicos distinguindo-se entre esses a pintura mural abstrata (1960) de Domenico Lazzarini situada à Av. Astolfo Dutra 444, onde se verifica a tendência compositiva gráfica, com linhas horizontais e verticais que se cruzam informalmente compondo pequenos espaços coloridos.

Das coleções particulares reunidas ao longo do tempo destaca-se a de Francisco Inácio Peixoto, onde existem obras de artistas brasileiros como Santa Rosa(pássaro), Portinari(D.Amélia) e (Inácio Peixoto), Milton da Costa(Composição), Iberê Camargo (Casario); os estrangeiros Luçart (tapecaria/animal), Utrillo (Mulheres), Picasso (s/título – litogravura), entre outros.

Na coleção de Josélia Pacheco encontram-se obras de Bruno Giorgi (esculturas – homem, mulher deitada), Di Cavalcanti (figura feminina), Guignard (paisagem , parque municipal e Cristo), Emeric Marcier (casario), e entre as obras de Portinari a conhecida “Ceia”, obra de grande monumentalidade, onde a técnica pictórica de Portinari ganha conotação de virtuosismo clássico.

Além de colecionadora importante, com obras de Marcier, Bruno Giorgi e Tenreiro, a pintora Nanzita é hoje uma das expressões femininas da arte produzida em Cataguases com trabalhos destacáveis no panorama da pintura mineira, como “Natureza Morta”, datada de 1946, que demonstra o interesse pela organização espacial, solucionada pelo predomínio dos volumes equilibrados. As obras modernas que surpreendem o visitante desavisado, por sua presença cotidiana correm o risco de passarem despercebidas pela própria população local, tornando-se lugar comum. Mas a insinuação dessa modernidade visual não deixa de reverter-se hoje na importância mais que artística, histórica e patrimonial. Constitui-se em referência daquela inquietude própria ao “espírito moderno” que contagia os artistas e a intelectualidade brasileira dos anos 20.





 

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