Mater

Print Friendly, PDF & Email

Mater (Augusto dos Anjos)

Como a crisálida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre!

E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
Fecunda fonte desse mesmo leite —
Que amamentou os éfebos de Sparta. —

Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!

Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas cousas pequeninas
A um biscuít de quilate muito raro
Exposto aí, à amostra, nas vitrinas.

Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescera há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.

Clara, a atmosfera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias…
E o antigo leão, que te esgotou as pomas,
Há de beijar-te as mãos todos os dias!

Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos!
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sicômoros eternos!

Publicações relacionadas

O Deus-Verme O Deus-Verme (Augusto dos Anjos) Factor universal do transformismo. Filho da...
Os sapos Os sapos (Manuel Bandeira) Enfunando os papos, Saem da penumbra, Aos pulos...
Por Que Mentias? Por Que Mentias? (Álvares de Azevedo) Por que mentias leviana e bela? Se min...
O gosto do nada O gosto do nada (Charles Pierre Baudelaire) Tradução de Guilherme de Almeida...

Deixe uma resposta